Um espaço para compartilharmos histórias, pensamentos e dicas sobre o universo feminino e a vida no planeta, com todas as suas delícias, dificuldades e contradições. 


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18.12.09

Mais um texto republicado sobre o Natal.



Preciso rever meu Natal quando:


...começo a achar que a vida eterna, prometida pelo Cristo, é o tempo que vou levar para pagar as compras de Natal.

...torço por uma reforma que elimine dezembro do calendário.

...os amigos secretos viram inimigos declarados depois de abrirem os presentes.

...dou vinho para o vigia da rua, esquecendo que ele é crente.

...o entregador da Veja, que nunca me viu, me acorda domingo às 7 da manhã para pegar a caixinha.

...meu filho comenta que a árvore do vizinho dá de 10 a zero na nossa.

...meu filho comenta que com estas luzinhas mixurucas nós nunca vamos ganhar o concurso de decoração natalina do condomínio.

...o assunto na hora da ceia é se Chester é uma ave natural ou se deram hormônio para o bichinho.

...a bebida fica a cargo do cunhado e ele traz um vinho garrafa azul horroroso que veio na cesta da firma.

...começo a achar que quando Jesus falou em sofrimento, ele se referia a encontrar uma vaga para estacionar.

...meu filho pergunta se, ao invés de cartinha, pode colocar sua lista de presentes no Orkut do Papai Noel.

...a empregada faz um vale para pagar a prestação da tv de plasma (que eu não tenho).

...a fantasia do Papai Noel fica apertada no meu irmão. No meu cunhado. E no meu marido.

...meu filho pergunta quem está tomando conta da fábrica de brinquedos agora que o Papai Noel está trabalhando no shopping center.

...meu filho me pergunta como Papai Noel não morreu congelado na manjedoura e se Belém é a capital do Polo Norte.

...esqueço da lembrancinha do porteiro e ele esquece o restante do ano de colocar o jornal na minha porta.

...o colega que levou máquina fotográfica na festa de final de ano da firma é demitido por justa causa.

...o presente mais barato da lista do meu filho, só poderá ser comprado se eu entrar na lista dos 10 mais ricos da Forbes.

...meu marido ameaça entrar com um pedido de impeachment se aparecer mais um cheque-pré no canhoto do cheque.

...depois de peregrinar por lojas, shoppings, calçadões e supermercados, fico na dúvida se estamos comemorando o nascimento ou o calvário do Senhor.

...meu filho pergunta porque o Papai Noel é branco em um Shopping e negro em outro.

...me lembro que o motivo de toda esta loucura é celebrar o nascimento do Homem que, há 2000 anos, introduziu o conceito de vida simples no ocidente.

14.12.09

O assunto é maternidade.

O blog "Escreva Lola escreva" lança a terceira edição do concurso de blogueiras. O tema deste ano é "Maternidade". A seleção final inclui 25 textos que trazem diferentes visões sobre o assunto. Algumas engraçadas, outras emocionantes, mas todas imperdíveis.

Clique aqui para entrar e boa leitura!

9.12.09

Vamos salvar o Natal - texto republicado



Vamos salvar o Natal.

A primeira coisa seria minimizar o Papai Noel da Coca-Cola. Esse velhinho obeso, gastador, que nos estimula a comprar, comprar e comprar e que está, desde o final de novembro, molhado de suor, em TODOS os shoppings centers. Desculpe, bom velhinho, mas você ficou over. Não tem mais nada a ver com os tempos que vivemos. Acabou a magia.

O que vai salvar o Natal, é voltarmos ao principal sentido da festa no mundo ocidental: celebrarmos o nascimento do Cristo. Não o Jesus religioso, que morreu pelos pecadores e que faria você parar de ler este texto bem aqui. Não é desse Jesus que falo. Temos que resgatar o Jesus revolucionário. O ecologista. O maluco beleza que, há 2000 anos, abalou as estruturas da Roma perdulária e cheia de vícios, com suas idéias de vida simples. De amor ao próximo. De comunhão com a natureza.

Temos que resgatar o barbudo que disse que somos todos uma só família. Todos habitantes do mesmo planeta Terra. Eu, você que está me lendo, o feirante, o doutor, o agricultor, o catador de papel. E que as diferenças impostas pela sociedade são cruéis e fonte da maioria dos nossos problemas.

Temos que resgatar o homem que, ao ver que a comida não dava para todos, dividiu-a. E, ao invés de uns poucos comerem muito, todos comeram um pouco. O homem magro, de modos frugais, que se satisfazia com frutas, grãos, mel, peixe (talvez) e um vinhozinho de vez em quando, porque ninguém é de ferro. E não com leitões, cabritos, tenders, chesters, lombos, picanhas - geralmente, todos juntos na mesma ceia.

Temos que reviver as idéias do sujeito que introduziu o conceito de vida simples no ocidente. E praticou-a todos os dias em que viveu. Aquele homem que vivia apenas com o necessário, pois acreditava que os únicos bens que devemos acumular, são os valores que levamos dentro de nós. Que expulsou os mercadores do templo, pois uma coisa são valores da alma. Outra são os do dinheiro. E feliz é quem consegue diferenciá-los.

Renascer a alegria de um homem que vivia rodeado de amigos, que amava os animais, que viajava, que era carinhoso e benevolente com todos. Principalmente, com aqueles que erravam (isso me dá um alento, que nem te conto!).

Neste Natal, tenho pensado muito nisso. Pensando no aniversariante que, quando estudado livre das amarras e preconceitos da religião, revela-se um grande visionário. Um líder transformador, que parecia antever a encrenca que 2000 anos depois nos enfiaríamos. Em tempos de simplicidade voluntária e consumo consciente, não vejo ninguém melhor para seguirmos.

Que este ano, a gente consiga plantar a sementinha de um Natal verdadeiramente Cristão. Um Natal "menos" em tudo o que é material. E "mais" em alegria, risadas, comunhão com aqueles que amamos, divisão e confraternização. Um Natal com menos sobras. Nas lixeiras, na geladeira e nas parcelas do cartão de crédito. Essa é a minha sugestão. Um Feliz Natal para você e para todos nós!

Publiquei este texto no Natal do ano passado, para participar de uma blogagem coletiva do "Faça a sua parte".

4.12.09

A Educação Infantil e a alfabetização.

A educação Infantil e alfabetização.

Um belo dia, seu chefe lhe informa que você terá que aprender a operar um novo software. Um programa novo, com códigos e linguagens absolutamente desconhecidos por você. Para aprendê-lo, há dois caminhos:

Ser colocado numa sala, para que alguém lhe transmita toda a teoria e a programação, através de aulas, exercícios, livros, trabalhos e provas.

Ou, fazer antes uma aproximação sua ao novo software. Isto é, circular pela empresa para entender os motivos de estarem implementando aquele novo programa. Descobrir por que ele é importante, qual contexto será usado, quais as enormes possibilidades que ele abrirá para você e para a companhia, quais recursos ele oferece, onde você pode pesquisar mais, quem já trabalha com ele, com quem você pode trocar conhecimentos etc. Só então, depois de situado, envolvido e familiarizado, inicia-se o aprendizado formal do software.

Analisemos as duas opções. A primeira é um aprendizado passivo. Você está fechado numa sala recebendo um bocado de teoria, provavelmente entediado, perguntando-se o porque de ter que aprender tudo aquilo, achando que a chefia só inventa, e, louco para sair e tomar um café.

Na segunda opção, você entra na sala com vontade de aprender. Teve a oportunidade de visualizar o amplo horizonte que o novo programa abrirá na sua carreira e está curioso e engajado em explorá-lo. Quer compartilhar com os amigos, conversar sobre ele em casa, pesquisar na internet, comprar livros sobre o assunto.

Na educação infantil, muitas escolas ainda ensinam como a empresa que força o funcionário a aprender algo que ele não sabe para que serve. Ensinam a "ler e escrever" contando com um conhecimento prévio que a criança não possui. Ignoram que o mundo "letrado e numerado" tão familiar aos adultos, é desconhecido aos pequenos. Enfiam-nos na sala e tascam desenhos de letras, caligrafia, cópias e ditados sem que nada disso faça muito sentido na cabecinha deles.

Uma boa escola de educação infantil não foca seu trabalho na alfabetização. Porque sabe que as crianças pequenas são perfeitamente capazes de aprender letras, números e palavras, mas tem uma enorme dificuldade em uni-los atribuindo significados. Isto é, elas enxergam tijolos, janelas e telhas. Mas não visualizam a sala.

Por isso, a boa escola não perde tempo alfabetizando antes da hora. Porque é um aprendizado sem significado. O foco é dado a coisas mais essenciais para a infância (mas que nem sempre fazem tanto sucesso entre os pais): sociabilização, psicomotricidade, a exploração de sons, cheiros, cheiros, sensações e de tudo o mais que o brincar oferece.

Voltando ao exemplo do software, a boa escola preocupa-se em fazer a aproximação da criança com o mundo da escrita, deixando-a pronta e com vontade de receber o aprendizado formal, que acontecerá no ensino fundamental.

E para que isso não aconteça de forma entediante e impositiva, são desenvolvidas atividades lúdicas, divertidas e fantasiosas envolvendo textos e cálculos. Receitas de culinária, registros de explorações no jardim, a divisão de um bolo de chocolate, cartas endereçadas a super heróis ou ao melhor amigo, contagem dos pontos de jogos, leitura de contos, elaboração de roteiro de teatro, histórias em quadrinhos, brincadeira de escritorinho, visitas a feiras e mercados etc.

Escrevo isso em resposta a uma pergunta muito interessante que me foi enviada recentemente. Diante de um filhote visivelmente mais adiantado que a turma, os pais vivem o dilema de adiantá-lo ou não, pois no ano que vem fará o último ano da educação infantil e temem que ele se desestimule "quando um dos objetivos é escrever as primeiras palavras", coisa que o garoto já faz. E concluem perguntado se devem sacrificá-lo agora para evitar que ele sofra no futuro.

Numa escola cujo foco não seja alfabetizar e sim aproximar as crianças das imensas possibilidades da escrita, não faz diferença que uns sejam mais adiantados que os outros. Pelo contrário. Esse contato entre os desiguais é favorecido e permite uma troca muito rica de conhecimento entre as crianças. Um estimula o outro e todos crescem juntos.

Além disso, supondo que a criança seja mesmo bem mais adiantada que os demais, normalmente, esse adiantamento se dá em apenas uma área. Nas demais, ela é tão pequena como as outras. Ao ser adiantada, que recursos terá com os maiores em situações de conflitos? Conseguirá se impor ao grupo como um igual? Será tão hábil como os maiores nos times de futebol? E quando começarem os jogos sexuais, os namoricos? Não será incentivado precocemente para isso? Para que forçá-lo a atender as exigências de lição de casa, de ficar sentado copiando e realizando exercícios, quando sua maior vontade ainda é brincar?

Só para exemplificar, na sala do meu caçula, que está no último ano do infantil, há um garotinho que sempre se mostrou mais adiantado. Quando eles eram muito pequenos e desenhavam apenas rabiscos, ele já desenhava figuras humanas, com dedos, roupas e dentes. Hoje ele já lê e escreve. Comparado ao meu filho que, aos 6 anos, só escreve o próprio nome, ele estaria muito a frente em termos de domínio da escrita. Mas, nos demais aspectos é um menino idêntico ao meu. De vez em quando, ainda escapa um xixi nas calças, faz manha quando contrariado, é imaturo na resolução de conflitos. Se os pais dele fossem avaliar apenas os aspectos intelectuais, talvez o adiantassem. Mas, conhecendo o menino, tenho certeza que seria um erro em todos os demais aspectos. Ele acompanharia a nova turma intelectualmente. Mas teria que se esforçar além da conta para acompanhá-la emocionalmente.

Meu conselho aos pais que enviaram a pergunta permanece o mesmo do texto "Crianças adiantadas na escola": não adiantem seu filho.

Não é a série que vocês devem questionar e sim os procedimentos da escola. Alfabetizar crianças tão pequenas, dar ditado, evitar a troca entre elas, é muito, muito pouco! Seu filho, definitivamente, merece mais. Mas não será adiantando-o um ano que ele obterá aquilo que precisa para se desenvolver na sua plenitude.

Conversem com a escola para que, no novo ano, eles tenham um olhar cuidadoso para que ele não se entedie e peça que eles desenvolvam outras atividades além da escrita. Mais lúdicas, mais brincalhonas. Mais infantis.

E mantenham-se firmes. Sem ansiedade. Logo ele estará mais crescido, lidando com diversos conteúdos e as diferenças não serão mais tão acentuadas. A infância passa rápido. Defendam a do seu filhote com unhas e dentes! O restante virá naturalmente, no tempo e na idade certa.


Obs: Este texto contou com a consultoria da Telma Vinha, docente da Faculdade de Educação da Unicamp, autora do livro "O Educador e a Moralidade Infantil", co-autora do livro "Quando a escola é democrática", minha irmã queridíssima e responsável por muitos dos palpites que dou por aqui.


1.12.09

Escolas se omitem sobre o bullying.


Escolas se omitem sobre o bullying.

Um dos principais agentes do combate ao bullying é a escola. Contudo, ainda são poucas as escolas que sabem como lidar com o problema.

Uma das grandes dificuldades está em identificar o problema. Diante de um caso de agressão, muitos professores acham que "é coisa da idade", "no meu tempo a gente também fazia isso" e relevam.

Outro problema comum é culpar a vítima. É comum dizer que a vítima do bullying "provoca" a agressão com seu comportamento "estranho" e "arredio". E responsabilizam-na por não se integrar ao grupo.

Omissão também é um grande fator. Muitos professores sabem do problema e deixam pra lá. Botam a culpa da agressividade dos alunos na gordura trans, no Silvester Stalone, no pai traficante e, candidamente, lavam as mãos.

Falta de confiança é outro problema que impede que a vítima conte a um professor o que está acontecendo. Estudos com vítimas de bullying apontam um receio muito grande da vítima em contar, tanto por medo das agressões piorarem, como por achar que nada será feito.

Muitas vezes a escola se omite diante do ciberbullying. Por não ser praticado dentro dos muros da escola, os educadores ignoram as agressões feitas por celular, internet, comunidades tipo orkut etc. É o bom e velho "te pego lá fora", só que o lá fora agora é a web.

Publico aqui um vídeo que retrata bem a gravidade do problema. É em inglês, mas supercompreensível até por quem não fala nientes da língua.




Depois de identificado o bullying, outros problemas surgem.

É comum tentarem resolver o problema com bronca, sanções e suspensões. Nada disso funciona e, muitas vezes, a situação piora. Obviamente que os autores devem ser responsabilizados pelos seus atos, mas junto a isso, é preciso haver um trabalho sistemático na escola sobre resolução de conflitos, respeito às diferenças, conscientização sobre o bullying e suas consequências. E isso não deve ser feito em forma de sermão. Filmes, peças de teatro, jornais, assembléias e relatos verdadeiros ajudam a trabalhar o tema de uma forma não autoritária e muito mais eficiente.

Falta espaço aos indignados. Muitos alunos sabem das agressões a um colega, discordam dela, mas se calam. É preciso que a escola encontre mecanismos de fortalecer e valorizar os indignados, estimulando-os a agir em defesa da vítima e criando canais para que eles se manifestem (um mural, blog, assembléias, teatro, relações de confiança etc).

Sempre lembrando que os primeiros a saberem das agressões são os colegas. Principalmente, as agressões em comunidades da web. Conscientizá-los, criar espaços para denúncias, ouvi-los e respeitá-los é uma forma eficiente de tomar conhecimento rápido das agressões e agir prontamente, antes que causem maiores danos às vítimas e ao ambiente escolar.

Este comercial sueco é muito bom e mostra como os colegas podem se manifestar para combater o bullying.



E vamos ficando por aqui. Bjs!

24.11.09

Bullying, pesadelo nas escolas.



Bullying, pesadelo nas escolas.


Digite bullying no google (com e sem y) e terá uma surpresa. São milhões de páginas. O que mostra que este tipo de agressão há muito deixou de ser uma praga restrita aos enlatados da TV americana.

O bullying hoje é um fenômeno mundial e, muito provavelmente, acontece numa escola bem perto de você.

Foi tema bastante debatido no Congresso de Moralidade Infantil e anexo aqui uma matéria muito boa sobre o tema, com depoimentos de algumas das pesquisadoras que apresentaram trabalho no Congresso.

Como mãe, assisti às apresentações sobre bullying com atenção. Queria entender melhor o fenômeno e assim, aprender a lidar com ele. Um dos meus filhos já foi vítima de abuso físico e psicológico na escola - todos prontamente contornados e resolvidos pela direção, mas que me deixarem permanentemente atenta ao problema.

O que aprendi e que me ajudou muito no caso do meu filho:

1. Está provado, estatísticamente, que os agressores escolhem vítimas que não contam, isto é, as silenciosas. Portanto, converse sempre com o seu filho e estimule-o a contar a você, ao professor ou à coordenação toda e qualquer agressão sofrida. Muitas crianças acham que "se contar, piora". E é exatamente isso que os agressores querem que elas acreditem. Fique atenta.

2. Não estimule seu filho a sempre "deixar pra lá". Ele não é obrigado a levar na esportiva quando é apelidado de algo perjorativo, quando um colega coloca propositalmente o pé para que ele tropece ou quando um professor faz chacota dele em público.

Coloque-se no lugar da criança e imagine alguém chamando você de rolha de poço na frente de suas amigas. Ou fazendo-a se sentir diminuída por usar uma bolsa genérica. Humilha, fere e ofende. Por que, na mesma situação, seu filho teria que deixar pra lá? Ninguém é obrigado a conviver pacificamente com repetidas "brincadeiras" de mau gosto.

3. Fique atenta aos relatos de agressão. Se forem sérios ou repetitivos, procure imediatamente a escola. Exija uma atuação pronta e efetiva dos educadores na solução do problema. Muitas vezes, somos levadas a crer que o fato não é tão sério. Observando e ouvindo seu filho, você saberá melhor do que ninguém qual a gravidade do problema.

E se o problema continuar, tome uma atitude: mude seu filho de escola, faça um B.O (agressão é crime, ainda mais ao menor), vá para a justiça. Converse com Deus e o mundo. Só não deixe que o problema se prolongue.

4. Hoje o ciberbullying é uma triste realidade. Fique atenta aos orkuts, msn, mensagem de celular etc. Alunos usam o ambiente livre da internet pra "zoar" com a vítima. Quando ocorrer, boca no trombone, exija a intervenção da escola, dos pais e, se necessário, da polícia.

5. O bullying precisa de platéia pra acontecer. Preste atenção aos relatos do seu filho sobre os colegas. Pode ser que ele seja da turma dos agressores ou seja da platéia, isto é, dos que assistem passivamente a este tipo de comportamento. Não seja complacente com chacotas, apelidos maldosos e comentários humilhantes vindos do seu filho, para com colegas e professores. Deixe claro que este tipo de comportamento é inaceitável em casa, na escola e na vida. E que ele não só pode, como deve, se posicionar contra toda e qualquer agressão aos colegas, mesmo que para isso, perca algumas "amizades".

Deixe claro também que ele não precisa gostar ou ser amigo de todos. Mas o fato de não gostarmos de alguém ou não concordarmos com algumas das suas atitudes, não nos dá direito de agredi-lo ou humilhá-lo.

6. O mais triste que aprendi: para haver o bullying é preciso que a vítima se enxergue da mesma forma que o agressor a vê. É muito cruel! A vítima geralmente se sente inferior por ser diferente dos demais (baixinho, pobre, gordo etc) e tem uma enorme dificuldade em superar suas diferenças e se inserir no grupo. Por isso, por mais que os pais digam: "reaja, bata de volta, não deixe que façam isso com você", ela não consegue e precisa de ajuda, muitas vezes profissional, para fortalecer sua auto-estima e se sentir merecedora de mais respeito.

E não se iluda. A imensa maioria das escolas ainda não sabe como lidar com o problema. Bullying não se resolve com bronca, castigo ou sanções. É necessário um sério comprometimento da instituição com o desenvolvimento moral das crianças e com a resolução de conflitos. É necessário que o respeito seja moeda corrente entre alunos, professores, diretores e funcionários.

Esse assunto dá pano pra manga. Retornaremos a ele em breve.

18.11.09

Mãetorista


Mãetorista

Acordou irritada. Teria que levar o mais velho para a aula de guitarra. Depois fazer o almoço e buscar os menores na escola. Dar almoço e levá-los pra natação. Voltaria no final do dia. Cansada, suada, carregando mochilas de roupas molhadas e uma tonelada de impaciência.

No dia seguinte, era capoeira e inglês. E no outro guitarra de novo. Não sobrava mais tempo pra nada. E o pouco que sobrava, só conseguia cochilar desmaiada no sofá. Nem a novelinha conseguia mais assistir.

Resolveu dar um basta na vida de mãetorista. Ligou pra cunhada especialista em logística infantil. A dica era objetiva: peça ajuda aos outros pais. Ofereça. E trace roteiros para otimizar suas saídas.

Na primeira tentativa de "dividir" roteiros, a recepção dos outros pais foi fria. "Ah, eu tenho mesmo que vir pra esses lados, não preciso de revezar." A cunhada deu força, não desista, consulte outros. Achou uma mãe que suspirou aliviada diante da proposta. O acordo foi feito e com isso, ganhou 3 dias livres na parte da manhã.

Faltava dar um jeito nas atividades. Resolveu radicalizar: "desmatriculou" a filharada de tudo. Eles estranharam. Mas não reclamaram muito. Aparentemente, estavam tão cansados como a mãe e reagiram com criatividade à novidade do tempo livre. Inventaram jogos como jogar bolas de tênis do outro lado do muro e pulá-lo para buscá-las. Ou pingue-pongue individual, que a mãe quase filmou e colocou no Youtube. Passaram a passear de bicicleta, cozinhar juntos, frequentar mais o parque, receber amigos. E de vez em quando, uma matinê no cinema.

No novo ano, decidiu que era hora de retomar algumas atividades. Com muito critério: apenas uma para cada um. E pensando antes de tudo na logística. O mais velho entrou no inglês. Numa escola próxima, para poder ir de carona com o pai e voltar de ônibus. O do meio insistiu no futebol e foi matriculado na mesma escola que o filho da vizinha. Assim elas se revezam. E o caçula fica em casa brincando.

O restante do tempo é pra brincar, estudar (doce ilusão de mãe) e aproveitar o maior tesouro do homem moderno: o tempo.

E o marido nisso tudo? Comemora o sumiço de tanques e mais tanques de gasolina na fatura do cartão, a diminuição dos boletos de pagamento de cursos, filhos menos estressados e indo melhor na escola. E, sem dúvida, a mulher mais leve, bem humorada e bonita ressusurgida das cinzas do volante do carro.

11.11.09

Identidade de mãe



Identidade de mãe.

A primeira mãe segura o microfone e conta que trabalha fora por opção. Adora o que faz, mas reconhece que é muito difícil conciliar vida própria, profissional, maternidade e casamento. Vive correndo de um lado pra outro, gostaria de ter mais tempo com os filhos e todas as queixas comuns da maioria das mulheres que trabalham fora. Mas afirma que jamais ficaria em casa. Teme perder sua identidade, mesmo achando que muitas vezes a não a encontra em meio à tanta loucura e cansaço. A casa a sufocaria e não abriria mão da carreira que lutou tanto pra conquistar.

A segunda mulher olha para a câmera e conta que optou por ficar em casa. É mãe tempo integral. Ainda tem dúvidas da sua opção, mas enquanto as crianças são pequenas, sente que é dever seu estar presente. Considera-se num período de doação. Por enquanto, nada é mais importante na sua vida que sua família. E é para ela que vive e se dedica. Quando pensa nas amigas enlouquecidas, muitas tomando anti-depressivos, com filhos em criados em creches ou por babás, acha que fez a escolha certa. Não quer aquela vida. Mas tem dúvidas se a vida que vive é exatamente a que quer.

Colocadas frente a frente num programa de TV as duas argumentam. A primeira defende com unhas e dentes sua opção e acha que filho e marido não justificam tamanho sacrifício. Pergunta: "E quando seus filhos crescerem? O que vai ser de você?". A segunda defende-se dizendo que hoje é o momento deles. Que os filhos da outra são criados por terceiros e que isso trará consequências no futuro. O auditório se divide.

A discussão prossegue sem conclusão. A psicóloga do programa intervém. Diz que ambas tem sua razão, que a situação não é 8 ou 80. E blá, blá, blá.

Faltou uma terceira convidada no programa. Uma mulher que não contasse o que faz. Saberíamos apenas que ela é mãe. E que dissesse que a opção que tomou não foi por filho, nem por marido, nem por carreira. Foi por si própria."Escolhi o que era o melhor pra mim. Não foi fácil, ainda é difícil, mas tenho certeza que nada seria melhor pra mim neste momento."..."Não tenho a menor idéia de como estarei daqui há alguns anos, nem como meus filhos ou meu casamento estarão, mas hoje estou bem. Cuidando de mim e, com isso, cuidando melhor deles. Tenho dias de loucura e correria, mas estou no controle da minha vida. E sei que minha identidade está em mim. Não na minha carreira, nem no meu marido e muito menos nos meus filhos. Amo-os imensamente. Mas amo mais a mim mesma. E com isso consigo amá-los ainda mais a cada dia."

Aí o programa se encerraria. A platéia bateria palmas, mas muitos sairiam do estúdio sem entender direito o que aquela mulher misteriosa quis dizer.

9.11.09

A culpa é da vítima.



A culpa é da vítima.

Hoje ligo o computador para descobrir que a Uniban resolveu de uma forma emblemática a agressão à aluna do vestido curto: expulsou-a da universidade.

E assim deu seu veredicto: o culpado é a vítima.

Chamei a decisão de emblemática porque infelizmente é o retrato fiel da forma primitiva com que ainda resolvemos nossos conflitos. Precisamos achar um culpado e puni-lo. Mesmo que este seja a vítima.

É assim com crianças desaparecidas: "Os pais não cuidaram como deviam". Com esposas espancadas: "Ela provocou". Com vítimas de assalto: "Ah, mas quem mandou andar com o vidro do carro aberto". Com vítimas de clonagem de cartões: "O senhor não cuidou direito da sua senha".

Culpar a vítima não é exclusividade de ninguém. Nós pais, sem querer, fazemos isso o tempo todo. Quantos de nós, ao vermos um filho voltar da escola chorando porque o amigo quebrou seu brinquedo, exclamamos acusadores: "Quem mandou levar o brinquedo à escola!". Ou quando o filho apanha: "Você deixou ele te bater?". Ou, quando ele esquece um objeto e alguém pega: "Quem mandou ser esquecido?".

Nessas horas, esquecemos de proporcionar o conforto que toda vítima necessita para se recompor e reagir. Disparamos logo a sentença: "a culpa é sua" e pioramos sua dor.

Fazemos isso porque foi assim que aprendemos. Foi assim que sempre agiram conosco. Não há má intenção. Apenas uma inabilidade herdada e nunca refletida. Mas, esse comportamento vindo de uma reitoria de uma universidade é inaceitável.

Educadores estudam e são treinados para EDUCAR. Inclusive através dos conflitos. E não, para resolvê-los de forma primitiva e automática, como fazem os leigos. Os alunos podem achar que a moça "provocou". A mídia pode fotografar e exibir com orgulho o tal vestido curto. Mas, educadores, da mais alta patente, deveriam saber separar o joio do trigo. Ao invés de usarem o caso como oportunidade de reflexão, crescimento e transformação, preferem punir logo a vítima e assim resolvê-lo rapidamente. Com isso, dão razão aos agressores: "Acabamos com a puta da universidade!"

Um caso lamentável, em todos os aspectos. Onde podemos apontar inúmeros culpados. Menos a vítima.



P.S: A Ceila, do Desabafo de Mãe está promovendo uma discussão sobre o papel dos pais neste triste caso. Para participar clique aqui.

6.11.09

As mães de "Orgulho e Preconceito".


Se você é fã da escritora inglesa Jane Austen e caiu aqui em busca da visão de um especialista, fuja! Mude rapidamente de blog. Sou uma leitora amadora e escrevo porque estou participando de uma roda de leitura sobre o livro "Orgulho e Preconceito", promovida pela Vanessa, do Fio de Ariadne.

Aderi ao desafio, porque já tinha lido este livro, adorado e achei interessante relê-lo e discuti-lo numa nova fase da minha vida.

Gosto muito do texto da Jane Austen. Acho-a delicadamente irônica. Ela consegue descrever com sutileza e bom humor os costumes da sociedade inglesa do início do século 19, construindo frases impagáveis, com um humor inteligente e nada escrachado.

A primeira coisa que me chama atenção quando leio livros ou vejo filmes sobre os ingleses de outrora é que ninguém trabalha. Incrível como eles conseguem levar a vida jogando baralho, escrevendo cartas, lendo livros e viajando. Ninguém de respeito pega no batente. Alguém pode me explicar de onde vinha a renda dessa gente? Só podia ser das colônias. Não tenho outra explicação.

Mas são as mães, as personagens que mais me atraem. Incrível como, cerca de 200 anos após terem sido criadas, elas se mantém super atuais. O mundo mudou, a mulher mudou, as relações mudaram. Mas mãe é mãe. E continuam todas, muito parecidas. Seja nas novelas da Jane Austen, do Manoel Carlos ou na casa da sua sogra. Veja se concorda:

Mãe casamenteira - A Sra. Bennet é desesperada para casar as filhas. Para isso as atira sobre qualquer bom partido que pinte no pedaço. Quem não conhece uma mãe assim?

Eu conheci duas que preciso registrar para a posteridade.

A primeira foi na recepção do ginecologista. A mulher, felicíssima, contava a todos os presentes que suspeitava que a filha adolescente estivesse grávida de um super astro da música sertaneja, com o qual foi para a cama após um show. Detalhe: o sujeito é casado e tem filhas na idade da menina. Esta está mais para os roteiristas do Pânico do que para Jane Austen.

A segunda mãe é minha preferida: ao constatar que a sobrinha "rodada" havia se casado muitíssimo bem e a filha "certinha" de 30 e poucos anos estava "encalhadíssima", a mãe solta a seguinte pérola: "Você já viu como as galinhas sempre arrumam bons maridos? Por isso, eu falo pra minha filha...você precisa dar mais! Esse é o seu problema."

A mãe controladora. Lady Catherine tem personalidade forte. É orgulhosa, autoritária e controla a vida de todo mundo. Dá conselhos e palpites o tempo todo, desde a criação dos filhos dos outros, até como fazer uma mala. É uma criatura de nariz empinado e com opinião formada sobre tudo. Acha sua filha, uma débil criatura, superior a todas as solteiras disponíveis e planeja para ela um casamento com um homem à altura. Perto da mãe controladora ninguém solta pum. Nem respira. Quem nunca trombou com uma matrona assim?

Mãe genro é genro, com ou sem alça. Esta é a Sra. Lucas. Quando soube que a filha desencalhou, respirou aliviada. Que importa que o genro é o ser mais chato e mala sem alça sobre a face da Terra? Ele tem uma renda, estabilidade, a filha terá casa, comida, mas terá que lavar roupa. Ninguém é perfeito. Pior sina seria a pobrezinha aguentar um futuro de solidão. Essas mães são do tipo Erasmo Carlos: antes mal acompanhada do que só. Conheço muitas assim. Fecham negócio com o rapaz trabalhador. Sem sal, sem tempero e, muitas vezes, azedo. Pelo menos ele fará companhia nas tardes de domingo pra assistir o Faustão.

Essas são as mães. Tem as solteiras e estas inspirariam um texto a parte. São divertidíssimas. Os maridos então, surreais. Tudo o que eles querem é sobreviver ao matrimônio. Aconteceu há 200 anos. Mas podia ser hoje. Assim caminha a humanidade. E viva senso e a sensibilidade da Jane Austen.

Bom final de semana!