15.4.14

Bafômetro




Bafômetro


Mães se encontram para uma tarde de amizade e filhos.

“Menina, te contei que fui parada na blitz do bafômetro?”

“Não! E aí?”

“E aí que eu estava voltando de um jantar e tinha tomado umas cervejinhas.”

“Jura?! E você foi pega?”

“Vai escutando…eu disse pro guarda que tinha visto um documentário sobre o assunto e que não era obrigada a produzir prova contra mim mesma.”

“E ele?”

“Ele riu e disse que ia ter que me levar. Não sei pra onde, mas ia me levar. Daí ele me perguntou, bem na boa, se eu tinha bebido.”

“E você contou?”

“Ah, contei que tinha bebido uma ou duas cervejinhas e que não ia fazer o teste nem morta. Ele foi bem solidário, sabia? Disse pra eu relaxar e soprar que podia dar bem baixo e isso não era tão grave. Eu pedi um tempo para pensar. Encostei o carro e fiquei ali parada sem saber o que fazer. Rezei pra tudo que é santo. Até que passou um tempo e ele voltou dizendo que não dava mais pra esperar. Ou eu soprava ou ele me levava."

“O que você fez?"

“Resolvi soprar. Lembrei do Pilates e soltei todo o ar que tinha no pulmão. Depois puxei um ar purinho, sem tragar, soprei e deu zero!”

“Zero?! E o guarda acreditou?”

“Ele festejou comigo e saiu contando pra todo o pelotão. Daí um policial lá do outro lado berrou que com a minha massa corporal só podia dar zero. Pode?! Não basta bêbada, também me chamam de gorda!”

A outra quase chora de rir. 

“Você veio de carro?”

“Não. Viemos a pé. Por quê?"

“Então, vamos tomar uma cerveja e você aproveita e me ensina essa técnica de puxar um purinho sem tragar. Vai que me param um dia.”



11.4.14

TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe


TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe

O menino sempre foi muito esperto e inteligente. Mas não tinha uma relação tranquila com a escola. Apesar de mais velho da turma, foi um dos últimos a ser alfabetizado. Era distraído, irrequieto, ao mesmo tempo participativo, do tipo que sempre se destaca na classe, mas quando chegavam as notas, estava sempre na média, ou abaixo dela.

Em casa, só parava quieto pra jogar videogame. A tarefa era um transtorno. Levava horas para fazer um exercício facilmente solucionável em 15 minutos. E sempre a pulso. 

Os pais e a escola conversaram algumas vezes. A conversa sempre muito boa. O menino é mesmo desatento, nada fora do normal, mas é preciso sempre “buscá-lo”. Traçaram combinados de ações conjuntas. E tudo caminhou relativamente bem, respeitando-se o ritmo e o jeito do menino, até que veio o famigerado quarto ano.

A escola construtivista não aplicava provas até o terceiro ano. Esse processo de avaliação iniciava-se apenas no quarto. Foi quando as notas começaram a despencar. E o clima em casa pesou mais ainda na hora da tarefa. 

A mãe insistia para que ele estudasse mais. Ele esperneava, jogava livros longe, fazia birra, chorava, gritava. A mãe tentava se manter tranquila, mas de vez em quando explodia. O pai intervinha. Deixa comigo, eu estudo com ele. Mas no final, vinha mais um bilhete avisando que o menino estava de recuperação.

O padrão se repetia. Escândalos em casa, má vontade, provas mal resolvidas, conversas com a professora, indicação para ele ler mais e outra recuperação.

Até que um dia, a mãe sentou-se com as provas na mão e começou a analisá-las. Algo lhe chamou a atenção. Em todas elas, respostas “viajandonas”. Criativas, mas nada a ver com o que estava sendo pedido.

Percebeu que ele interpretava textos sem lê-los, respondia sem prestar atenção na pergunta, pulava introduções e cabeçalhos.

Teve um clique. O menino sabe a matéria. Ele não sabe é fazer prova!

A partir daí, mudou sua postura nas tarefas. Deixou de querer que ele aprendesse a matéria, isso era com a professora. Começou a ensiná-lo como se faz prova: leia o texto antes de responder. Preste atenção na pergunta. Só responda depois de entender o que está sendo pedido. Releia o que escreveu. Não, não é para escrever sua opinião. É para responder o que está no texto...sim, eu sei que você sabe a resposta. Mas é para dar a resposta do texto e não a sua. 

No começo foi um sofrimento! O menino se enfureceu ainda mais. Berrava que não precisava ler os textos porque a professora explicava em sala. Ficava bravo a cada resposta apagada que precisava ser refeita. Mais ainda quando a mãe se recusava a ajudá-lo e o fazia procurar no livro, dessa forma, obrigando-o a ler.

A mãe entendeu que a fúria aumentou porque finalmente eles tinham acertado a abordagem. O menino estava confortável na estratégia que o tinha levado até ali. Não queria mudá-la. Lutava para ninguém mexer no seu queijo.

Mantiveram-se firmes e aos poucos, bem aos poucos, ele foi entendendo e se acalmando. “Essa resposta eu posso falar o que eu acho, né mãe? Está perguntando a minha opinião. Ai, que saco, tem que justificar também?!"

E foi depois de muita resposta apagada, muito texto relido, que o menino chega excitado da escola. “Tirei a nota mais alta da classe em português!!!! Eu sou o cara!!!”

A mãe quase não acredita. Mais do que feliz pela nota, ficou feliz pelo efeito na auto-estima do menino. Ele estava radiante. Foi só então que percebeu como ele se ressentia dos maus resultados anteriores.

Abraçou-o e comemoraram o resultado de tanto esforço. Enquanto o menino corria para mostrar a prova ao pai, a mãe pensou que bastou prestar atenção de verdade nele para entender melhor o problema. Seu filho não era desatento. Desatentos tinham sido os adultos responsáveis pela educação dele. 

Sabia que a luta não estava ganha. Mas pelo menos agora sabiam que rumo tomar.


11.3.14

Miley Cirus, coma feijão.



Miley Cirus, coma feijão.

Família reunida em volta da mesa para o almoço de domingo. A pequena, de sete anos, começa a cantarolar uma música enquanto se move sensualmente na cadeira e lambe a colher de um jeito suspeito.

Um segundo de constrangimento e a mãe entra em cena do jeito mais natural que consegue: 

"Filha, que é isso?" 

O primo, da mesma idade, responde por ela: 

"Tá imitando aquela cantora que canta PELADA aquela música da bola." 

"Ãhn?! Que música, que bola?" 

As crianças descem da mesa e voltam correndo com um tablet. 

"Olha, mãe, o vídeo da Miley Cirus...tá vendo..." 

A família se reveza para assistir ao clipe que mostra a ex-personagem da Disney, Hanna Montana, balançando nua numa bola de demolição enquanto lambe um martelo de forma bem sugestiva.

Tentando se recompor do susto por "aquilo" estar no tablet dos titicos, a cunhada comenta: 

"Nossa, mas por que ela lambe o martelo?" 

É a deixa para a mãe tentar recuperar o controle da situação.

"Por que ela tem uma doença que faz com que ela lamba tudo quanto é coisa de ferro que ela vê pela frente." 

O sobrinho revira os olhos e bufa, "Ai, que mentira!"

"Verdade! É uma doença muito grave chamada...", ela pausa para pensar. 

A cunhada vem socorrê-la, "Anemia. Essa doença se chama a-ne-mi-a".

"Isso, anemia! É uma judiação. Ela tem tanta falta de ferro no corpo, que lambe tudo que é de metal. É uma compulsão. Ela já teve muito problema por causa dessa doença...outro dia li que ela lambeu o postinho do metrô e teve diarréia. Imagina! Aquele poste todo mundo põe a mão, é imundo! A diarréia foi tão forte que ela teve que cancelar show."

A menina olha desconfiada, "Mãe, você tá falando verdade?". 

"Claro que estou! Essa moça devia se tratar. Agora, vamos comer feijão. Bastante feijão, porque um feijãozinho feito na panela de ferro é ótimo pra anemia!"

"Isso, mas é para comer o feijão e não lamber a panela, viu! Ouvi falar que a Miley Cirus fez isso num restaurante e queimou a língua. Teve que sair de ambulância e ficou um mês sem cantar", conclui a cunhada.

"Nossa, coitadinha!"

"Coitadinha, mesmo. Esse negócio de anemia não é brincadeira. Passa seu prato, anjinho...e dá aqui o tablet pra mamãe guardar".




































































































26.2.14

Quem escolhe a escola são os pais.



Quem escolhe a escola são os pais.

O menino chega em casa afoito: 

- Mãe, no ano que vem, quero mudar de escola. Você me coloca no Octógono?

- Ué, mas você adora sua escola! É por causa dos seus amigos, não? Alguns vão para lá no ano que vem e você não quer se separar deles. 

- É, mãe. Todos os meus amigos vão estudar no Octógono e eu não quero ficar sozinho. 

A mãe nega e a batalha começa. O menino pede, implora, tenta negociar, chora e faz malcriação. A mãe argumenta que ele fará novos amigos. Mas nada adianta e a insistência quase a leva à insanidade. 

Ela se afasta aborrecida e quando a coisa esfria, chama o garoto pra uma conversa. 

- Eu sei que você quer muito ir pro Octógono. É uma boa escola, alguns de seus amigos estão indo e você gosta demais deles. Também estou sabendo que um de seus melhores amigos vai pra lá e isso deve doer muito. Em você e nele. Mas, seu pai e eu levamos muito tempo escolhendo a escola que achamos melhor para você e para nossa família. E nós acreditamos que essa que você está hoje está lhe dando a melhor educação. Por isso, você vai continuar lá até o nono ano. 

- Até o nono ano?! NÃO! EU que escolho onde EU quero estudar. 

- Não, filho. A escolha da escola é uma responsabilidade dos adultos e não sua. Os filhos podem até opinar, mas quem tem que decidir são os pais. E nós temos que avaliar muitas coisas, além dos amigos. Se deixássemos para você escolher, estaríamos lhe dando uma responsabilidade que não é sua. É nossa! E você ainda não está pronto para assumir tamanha responsabilidade! 

O menino insiste. Quer saber o que a escola atual tinha de tão melhor. Argumenta, tece teorias, faz promessas e, diante das negativas, solta como se não tivesse escutado nada do que a mãe falou: 

- Você é uma chata! Mandona! Por que eu não posso estudar no Octógno, manhê? Você quer que eu fique forever alone!

A mãe decide que é hora de encerrar a conversa e tratar o assunto como mais um desejo que não será realizado, assim como fez com o aifone 5S e a quarta bola de sorvete: dizendo não e ignorando o esperneio. 

Tomada de uma estranha serenidade, achou que a decisão foi até fácil. Ela ocupando seu lugar de mãe e ele o de filho. Suspirou, imaginando como a vida seria mais simples se, nas demais escolhas, os papeis de cada um fossem assim tão claramente definidos. 





4.12.13

Mãe, você é incompetente.




Mãe, você é incompetente.

Você não vai conseguir parir. Mas não se preocupe, médicos treinados e maternidades equipadas tirarão esse bebezinho da sua barriga num piscar de olhos, sem correr risco de você atrapalhar o parto ou o final de semana da equipe. 

Você não vai conseguir amamentar. Mas não se preocupe, multinacionais da maior idoneidade produzem mamadeiras e fórmulas sensacionais, que alimentarão seu bebezinho até melhor que essas suas tetas. 

Você não vai conseguir cuidar da família e da carreira. Mas não se preocupe. Uma extensa rede de babás, berçários e escolinhas darão café da manhã, almoço, banho, janta e colo, para que seu filho cresça feliz e você não perca o foco. 

Você não vai ter tempo para fazer comida caseira. Mas não se preocupe, nas prateleiras das melhores casas do ramo você encontrará potinhos de comida pronta tão deliciosa, que seu bebê nem vai perceber que não foi preparada na sua cozinha. 

Você não vai conseguir convencer seu filho a comer alimentos saudáveis. Mas não se preocupe. Os sucos de caixinha são a pura fruta. Os biscoitos não tem gordura trans. As redes de fast food agora servem frutinhas. Bolos prontinhos são praticamente como os da vovó. E não há deficiência alimentar que um bom copo de achocolatado não corrija. 

Você não vai conseguir entreter seu filho. Mas não se preocupe. Canais infantis, aipodi, aipedi, aibuque, uí, ds, ps e atividades extra-curriculares de A a Z ocuparão todo o tempo do seu pequeno sem que você consiga entediá-lo. 

Você de vez em quando vai tentar fazer as coisas de outro jeito. Mas não se preocupe. Parentes, especialistas, profissionais e palpiteiros vão ajudá-la a recuperar o bom senso, criticando-a, enchendo-a de temores, chamando você de louca, antiquada e imprudente. 

Porque, mãe, hoje é tudo muito mais fácil. O mundo evoluiu e a maternidade precisava acompanhar. Para que sofrer, não é mesmo? 

E você ainda pode pagar no crédito, débito ou boleto.




Imagem tirada daqui.




21.11.13

O lanche no lixo




O lanche no lixo

O menino começou a devolver a merenda sem comê-la. A mãe estranhou. Normalmente ele era morto de fome, mas o lanche, preparado com tanto carinho, estava voltando intacto.

As desculpas habituais "eu tava sem fome", "quis jogar bola no recreio" não colaram. Uma observação atenta e ela percebeu que o adolescente estava com vergonha de levar lanche de casa. Abrir a mochila e enfrentar o olhar da galera diante de um sanduba no pão integral ou de uma fruta, para ele era a morte. Queria comer os salgados da cantina, como os demais colegas. 

A mãe, do tipo natureba econômica, argumentou que o lanche que ela fazia era muito mais saudável que o da cantina e, além disso, ela e o marido suavam para pagar a escola particular. Lanche da cantinha era um luxo para os dias em que o despertador falhava e não dava tempo de preparar nada.

Um empaca daqui, o outro dali e, passados seis meses de lanches devolvidos, a mãe desiste. 

"Olha, não vou mais fazer lanche pra você. Os ingredientes estão aqui. Se quiser merenda, prepare você mesmo. Mas não gasto mais tempo e dinheiro pra acabar tudo no lixo." 

O menino deu de ombros e, para agonia da mãe, cursou o restante do ano sem levar merenda. 

No ano seguinte, o garoto entrou para o ensino médio. Saiu da escola particular e foi para a pública. 

Depois de alguns meses, ele chega com a novidade. 

"Mãe, começaram a dar lanche seco de graça na escola." 

"Que legal! E o que é lanche seco?" 

"Bolinho pronto, bolacha recheada, suco de caixinha. Mãe...é ruim demais! Não consigo comer. Será que você me faz um daqueles seus lanches naturais?" 

A mãe abraçou o menino e só faltou soltar rojão. 

No dia seguinte, acordou cedo e preparou um sanduíche com todo carinho. Pão integral, patê de frango desfiado com coalhada seca, azeite, cenoura ralada, uma folha de alface, pimenta do reino e voilá! 

Entregou o lanche ao menino e torceu para reação dos amigos da nova escola não ser negativa. Temia que, se fosse zoado, a vergonha voltasse a dominá-lo. Agora com o agravante dele ter acesso gratuito ao universo de porcarias industrializadas e recheadas que a família sempre evitou. 

Aguardou ansiosa a volta do filho e a primeira coisa que perguntou foi se ele tinha gostado do lanche.

"Tava uma delícia. Mas você não vai acreditar…uma amiga me pediu uma mordida, depois outra e roubaram meu lanche! Saíram andando com ele na cara dura! Falaram pra amanhã eu levar seu lanche pra galera toda." 

A mãe deu risada. Graças à garotada mundo real da escola pública, o lanche caseiro estava de volta à cena. 
E em grande estilo. 



Foto retirada do My Recipe Magic. 

11.11.13

A namorada da filha do Sílvio.




A namorada da filha do Sílvio.

O garoto se aproxima da mãe com cara de aflito.

"Mãe, segunda-feira vai ter balada teen no Puxadinho. O Thiago me convidou. Eu posso?"

Pela expressão do garoto, a mãe percebe que ele queria muito ir e temia mais ainda que os pais não permitissem.

"Balada teeen numa segunda-feira?"

"Estamos nas férias, lembra? Deixa mãe, todos os meus amigos vão. E eu nem vou ter que pagar os 25 reais da entrada porque o bar é da namorada da tia do Thiago. Ela coloca nosso nome na lista."

O menino continua explicando. Não ia ter álcool, maior de 18 anos não entra etc, etc, etc. Mas a mãe, a partir daí, só vê os lábios dele se movendo e não presta atenção em mais nada. Estava focada na descoberta da namorada, com A no final, da filha do Sílvio, amigo da família e avô do Thiago.

Antes que transparecesse o que ia na mente, trata de encerrar o assunto com a resposta padrão para todas as situações saia justa da maternidade compartilhada: "Vou falar com seu pai."

Demora pouco para se dar conta do que havia acontecido. E acha graça de de si mesma. Se considerava toda aberta para a pluralidade da vida e do amor. Tinha ajudado a apedrejar Feliciano. Mas quem era verdadeiramente desligado dessas questões era o filho e não ela. Aos 14 anos, o garoto demonstrou absoluta naturalidade diante das opções da tia do amigo. A única preocupação dele era se ia ou não à balada. Naquela hora, sente vontade de ser igual ao menino.

Mais tarde, ela conversa com o marido.

"Vai ter uma balada teen, segunda-feira, no Puxadinho e nosso filho quer ir. Foi o Thiago quem convidou. O bar é da namorada da tia dele e ela coloca os nomes dos dois na lista. Acho que podíamos deixar. O esquema parece tranquilo, não servem ácoo..."

O marido a interrompe.

"O quê? A filha do Sílvio é sapata?!"

A mãe dá um sorriso e desiste de ir adiante com o assunto. Sabia por experiência própria que, a partir dali, não seria mais ouvida. Se afasta devagarinho para avisar o filho que ele iria à balada.

Enquanto caminha pela sala, escuta o marido murmurando do sofá:

"A filha do Sílvio?! Não acredito!"


6.11.13

"Filho, se vira."





"Filho, se vira." 



O menino sai da escola bravo e muito agitado. 

"Mãe, me tira dessa escola! Me tira dessa escola, já!" 

"Nossa! O que aconteceu?!" 

"Eu não aguento mais uns meninos da minha classe. O Fulano e o Beltrano ficam me zoando! Mãe, me põe noutra escola, hoje!" 

O mãe fechou os olhos por alguns segundos. Sempre havia sido muito solidária com as queixas do menino, conhecia seus problemas de relacionamento, mas dessa vez não sabia como reagir. Respirou fundo, seguiu sua intuição e a fala veio como se estivesse tomada por outro ser. 

"Filho, senta aqui e preste muita atenção no que vou dizer. Eu e seu pai já fizemos tudo o que podíamos pra te ajudar com os amigos da escola. Já conversamos com professora, com coordenadora, te trocamos de escola o ano passado, tornamos a falar com professoras e coordenadoras dessa nova escola, juntamos a turma pra um cinema, convidamos amigos pra brincar em casa. Você está lembrado disso tudo?" 

O menino cruza os braços emburrado. 

"Tô." 

"Então, nossa parte, eu e seu pai cumprimos. Agora, filho, está na hora de você cumprir a sua. Se vira, porque você não vai mudar de escola. Se esforce para se enturmar. Você é um menino querido e esperto. Tenho certeza que logo vai estar cheio de amigos. Agora é com você." 

O menino olhou com estranheza para a mãe. Depois abaixou a cabeça e seguiu pensativo o resto do caminho até a casa. 

A mãe respeitou o silêncio. A bola estava com ele, isso tinha ficado claro e, naquele momento, qualquer outra palavra viraria sermão. 

No peito um fiozinho de angústia quis se formar, mas a leoa, aquela que rosna para que a cria se afaste e aprenda a caçar, rugiu alto e o fiozinho se desfez.

5.9.13

Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.




Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.

Minha irmã, educadora que atua na formação de professores, me conta que sua filhota, de 5 anos, lhe pediu que arrumasse emprego na escola onde ela estuda. Ela repete a justificativa da menina:

"Assim, você vai ser minha professora. E eu vou ser sua aluna querida. Vou ser sua ajudante, vou pegar coisas pra você no armário, vou tirar xerox, apagar a lousa, sentar no seu colinho na hora da roda, passear no recreio de mãos dadas com você...nós vamos poder ficar juntinhas o tempo todo!"

O lado educadora da minha mana explica: "Identifiquei nessa fala dela algo muito significativo...ela começa a perceber que há um espaço onde ela deixa de ser filha e passa a ser aluna. Olha que legal!"

"Legal? Eu achei que ela estava era com saudade de você", comentei.

Minha irmã sorri: "Numa análise superficial parece isso mesmo. Mas na verdade ela está é relutante em perder o status de filha. Filhos ocupam uma posição privilegiada em nossas vidas. São o centro de nossas atenções e por mais que aprontem, jamais deixarão de ser nossos filhos. Já na escola, eles ocupam um lugar igual a todos os demais. O bom e velho 'mais um na multidão'. Lá eles precisam se esforçar para manter as relações."

Eu brinco: "Que interessante! Vai ver é por isso que em casa eles se comportam de um jeito e na escola de outro, completamente diferente!"

"Sim! Porque são socializações diferentes. Em casa eles podem bater, fazer birra, invadir espaços que não são deles, aprontar o que for. A relação pais e filho está garantida. Chamamos essa socialização de primária. Já na escola, a coisa muda de figura. Eles começam a entender que o comportamento deles interfere na relação com o outro. E que as relações não são perenes, como no lar. É a socialização secundária. Uma não substitui a outra. Pelo contrário, elas se complementam e são fundamentais para o desenvolvimento do futuro adulto."

"Nossa! Mas tem muita mãe relutante em deixar seus filhos virarem alunos, não?", digo.

Ela dá risada. "Até eu! Soltar nossos bichinhos é difícil. Vê-los magoados porque o melhor amigo não os quer mais, porque não serão as noivas da quadrilha ou porque não foram os primeiros a serem escolhidos para o time. São coisas que jamais deixaríamos acontecer na nossa jurisdição!"

Eu complemento: "Temos ganas de ir à escola e dizer uma verdades...'Como assim? Meu bebê é só mais um nessa instituição?! Você está querendo me dizer que essa criatura especial, ultradotada e eleita pelos Deuses para ser minha, é igual aos demais?!'"

Interrompemos para dar risada.

Minha irmã brinca: "Acho que as escolas deveriam promover a socialização secundária das mães, que tal? Matricule seu filho e participe do curso que a ensinará a deixar seu filho virar aluno, sem lágrimas ou sofrimento."

"Pois é...ia facilitar muito a vida da escola. E a nossa também. Já pensou? 'Opa esse problema é do seu aluno. Resolvam aí porque eu sou só mãe e se já está difícil dar conta do meu filho, que dirá do seu aluno'", concluo.

"'Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.' É bom isso, hein? Vou usar esse mantra com meu grupo de professores."

"Tudo bem, eu cobro baratinho".

"E eu pego sem pedir. Sou sua irmã e nossa socialização é primária. Fica esperta."




*Cena da escola do filme "Procurando Nemo", da Disney-Pixar.


28.8.13

Mercado Negro




Mercado Negro


O menino, de dez anos, sai da escola excitado.

"Mãe, hoje vendi quatro cartelas de chiclete pros meus amigos! Comprei por um real na padoca e vendi por dois reais. Lucrei quatro reais, mãe!"

"Ué, mas não tem uma regra que não pode vender coisas na sua escola?"

"Mercado negro, mãe. Mercado negro!"

Sem saber como reagir, a mãe decide dar corda para entender melhor a situação.

"E ninguém dedurou você?"

"Só vendo pros bico fechados. Os X9 da sala estão fora do negócio! Sabe a Fulana e o Sicrano, aqueles que contam tudo pra professora?..."

"Sei..."

"...então, combinamos de ninguém deixar eles saberem."

"Caraca! To impressionada com essa história! Então, deu tudo certo?"

"Deu...só tive problema com a Beltrana."

A mãe logo pensa que filha de peixe, peixinho é. A mãe da menina, sua amiga, é uma grande ativista anticonsumismo infantil, batalhadora da alimentação saudável na cantina, defensora da ética e abominava a venda de doces na escola.

"Com a Beltrana! É mesmo? Aposto que ela tentou te convencer a parar com as vendas, né?"

"Não, mãe! Ela ameaçou me caguetar se eu não desse quatro chicletes de graça para ela."

"Jura?! Você está falando sério?! E o que você fez?"

"Dei o que ela pediu! Quatro chicletes de graça. E ela jurou que além de guardar segredo, vai me ajudar a vender entre as meninas."

A mãe não sabia se gargalhava ou chorava. Por hora, achou melhor aumentar o volume do rádio. À tarde ligaria pra amiga. Ou isso será que isso é coisa de X9?

Já não sabia mais nada.