25.7.14

A observadora de mísseis.




A observadora de mísseis.

Conheci Dalal em Tel Aviv. Não sei bem sua idade. Mas é idosa e caminha com uma certa dificuldade, arrastando suas pantufas calçadas sobre meias para varizes, que vão até o joelho.

Dalal não se cobre, porque é árabe cristã. Nasceu e cresceu na região e foi testemunha de todas as suas transformações, desde a ocupação inglesa na Palestina até a formação do Estado de Israel. 

Conta que seus olhos já viram muita coisa. Guerras, revoltas, atentados, terrorista sendo arrastado vivo em motocicleta, terras tomadas e famílias apartadas. Viu a chegada dos judeus, com seus hábitos estranhos de gente que vem de terras ainda mais estranhas. Viu chegarem os etíopes e suas mulheres de rosto fino e tatuado. Viu nascer árvore onde era deserto e cidades em locais onde nem as ovelhas queriam pastar.

Se um dia os judeus fossem embora, Dalal diz que iria com eles. Diante da minha surpresa ela explica que prefere a vida daquele jeito. Diz que antes era muito difícil, muita bagunça e que em sessenta anos eles fizeram um país onde se pode andar na rua, com água, eletricidade, seguro social...Dalal olha longe e dá de ombros.

Não sei se ela repetiria essa afirmação para os da sua comunidade. Mas, definitivamente, sua confiança nos israelenses não se reflete na comida. Dalal não come nada industrializado e cozinha tudo do zero, de preferência, só com ingredientes árabes. Ela curte azeitona, faz iogurte, assa berinjelas para o babaganush, depois rega com azeite de oliva palestino que compra em garrafas pet de um mercador do bairro. Só bebe café “arabic” aromatizado com grãos de cardamomo e que nunca é coado.

Em algumas ocasiões, Dalal tocava nossa campainha e nos presenteava com um pratinho com quatro delicados charutinhos de folha de uva, um pires de picles de nabo e couve flor. Noutras, era um potinho com três pequenas esfihas e uma deliciosa porção de molho de tahine perfumado com limão siciliano. 

Quando a perna doía muito, pedia que minha irmã lhe fizesse uma massagem, enquanto isso lhe ensinava truques de culinária, como colocar um pouco creme de leite para fermentar junto com o iogurte para torná-lo mais cremoso, ou que temperos secos deviam ser guardados no freezer para manter o aroma e o sabor. Depois nos servia uma porção de kibes, que ela pronuncia kube.

Aos poucos, fui descobrindo que Dalal perdeu um filho de trinta anos, de câncer de pulmão. O moço nunca havia fumado, mas o pai dele sim. O marido de Dalal sempre fumou muito, até dentro de casa, e manteve o vício mesmo depois da morte do rapaz. O esposo faleceu há um ano e Dalal hoje vive sozinha. 

Fiquei sabendo, recentemente, que quando soam os alarmes antimíssel e a cidade toda corre para os abrigos, Dalal vai pra varanda. E fica olhando para o céu querendo ver onde o míssel vai cair.

A cena me faz sorrir. Penso que no fundo, Dalal quer que o mundo exploda. Talvez por ser a única coisa que seu olhar ainda não viu.


6.6.14

Avisado!



Avisado!

- Moça, quero meu ingresso de volta.

- O que houve senhor?

- Essa porra de filme é uma viadagem só. 

- Senhor, posso ver seu ingresso?...Desculpe, mas aqui está carimbado que o senhor foi avisado do conteúdo homossexual do filme.

- Sim, mas eu achei que o Capitão Nascimento ia entrar no barraco e encher de tapa esses viadinhos filha da puta.

- Não entendi, senhor…

- Porra, quando eu ia imaginar que o próprio Capitão Nascimento é um tamanho baitola?

- Senhor, esse filme não é do Capitão Nascimento.

- Como não? Olha o cartaz, minha filha!

- Senhor, aquele é o Wagner Moura. O ator que fez o Tropa de Elite. Mas esse é outro filme, outro diretor, outra história...

- E você me avisou? Cadê o aviso…”CUIDADO, NÃO É TROPA DE ELITE”?

- Senhor…eu não sei o que dizer…

- Óbvio que não sabe. Porque eu estou certo. Me devolve meu dinheiro e encerramos esse assunto. Eu não vou pagar pra ver bichinha se pegando. 

- Clayson, QAP? To com um problema aqui. Cliente avisado querendo grana de volta. Praia do Futuro. Qual o procedimento? Sei…ok…hum, hum…tá bom. 

- Senhor, o gerente disse não. Nem pensar. Necas de catibiriba. Mandou o senhor reclamar com o Bolsonaro ou com o Feliciano. Até com o Papa, se quiser. Apesar que com esse Papa aí duvido que o senhor consiga alguma coisa. 

- Ele disse isso?! Então, fala para esse gerentinho de merda que o Brasil tá essa baixaria por causa de gente como ele. Que palhaçada! Você vai ver um filme do Chuck Norris, você vai sossegado porque nunca vai ter barba na nuca de outro homem. Um filme do Chuarzenegui é só tiro. Vandaime, porrada. Só aqui, nessa bosta de país, nosso único herói morde o travesseiro. Te contar, viu. É uma avacalhação, estão acabando com a família. Por isso tem tanta bicha por aí. Esse país não tem jeito. Vocês acabam de perder um cliente. Um não, dois. Minha patroa também não bota mais o pé aqui. Patroa, porque sou macho pra carai.

- Tem certeza, senhor? 

- De quê? Que sou macho? Você é abusada, heim! Não dou na sua cara porque você é mulher.

- Tem certeza que não volta mais? Semana que vem tem filme novo do Vin Diesel. Daqueles que espirra sangue. Filme de macho.

- Vin Diesel?…Nã…nem pensar. Nunca mais volto nesse cinema. 

- Bom, depois não diga que não avisei.

- O que você disse?

- Nada não, senhor. Vai com Deus...próximo!


30.5.14

A escola humanizada precisa existir.





A escola humanizada precisa existir.

Agora que a escola com tecnologia começa a existir, fica a pergunta:

Quando os prefeitos e governadores vão investir na escola humanizada?

Uma escola onde o respeito mútuo é a base das relações.

Onde os alunos se sintam acolhidos, valorizados e queridos. E os mais vulneráveis se sintam seguros.

Uma escola que defenda valores humanos, não apenas nos murais, mas no dia-a-dia, exemplificando na prática e na postura dos educadores, o que é ou não aceitável numa sociedade verdadeiramente humana e justa.

Quando teremos escolas com prédios felizes? Espaços alegres e aconchegantes, como devem ser os locais onde se promove o saber. Locais tão queridos que as comunidades se apropriam, sentem-se parte e zelam por eles. E não lugares sombrios, com aparência de delegacias cinzentas, cheias de grades e cadeados, de onde a única coisa que se quer é fugir.

Então, senhores governantes, quando virá a escola feita para promover o ser humano e não apenas o ser português, o ser matemática, o ser geografia?

A escola que sabe que conversar é parte do aprendizado e que uma sala de aula sempre quietinha é uma sala apática e submissa.

A escola aberta aos conflitos, pois eles fazem parte da vida e só se aprende a lidar com eles, vivendo-os na prática.

A escola que encara os problemas de frente e identifica-os como seus, sem procurar transmiti-los para fora dos muros ou para as famílias.

Que reconhece a sociedade onde está inserida e convive com ela, sem lavar as mãos diante dos desafios e sim, aceitando-os e atuando para transformá-los.

A escola que só faz regras justas e necessárias, sem proibições autoritárias cujo único objetivo é controlar e não educar.

Quando teremos uma escola que vê os alunos como educandos, e não como problemas?

Que ensina a resolução não violenta dos conflitos. E, assim, promove a cultura da paz.

Que ensina a conviver com a diferença. 

A escutar.

A debater.

A olhar para o outro.

A praticar a cidadania.

A escola que se importa e, por se importar, promove a verdadeira transformação na vida das pessoas e na nossa sociedade.

E aí, prefeitos e governadores…quando?



28.5.14

A escola interativa começa a existir



A escola interativa começa a existir.

Uma das mais ousadas experiências em educação pública está pra acontecer em São José dos Campos. A cidade, polo aeroespacial, agora também vai levar tecnologia para todas as escolas municipais. É o projeto Escola Interativa, que já começou dando um notebook para todos os professores e instalando datashow, lousas inteligentes e banda larga de 30 mega, nas 600 salas de aula do ensino fundamental. Agora, a partir do segundo semestre, o projeto se amplia com a doação de um tablet por aluno do 6º ao 9º ano e, a partir do ano que vem, do 1º ao 5º.

O que mais me chamou a atenção neste projeto é que, apesar de sua grandiosidade, ele foi concebido para ser apenas mais uma ferramenta para o professor, que ocupa lugar central no plano. O sistema lhe dá total autonomia de uso, permitindo que ele escolha como usar as ferramentas e quando. Também permite a gestão total dos tablets dos alunos. Por exemplo, ele pode bloqueá-los quando quer a galerinha focada em algo específico, liberar apenas alguns, liberar todos, montar grupos na sala com atividades diversificadas. Pode também monitorar o que os alunos estão trabalhando em suas telinhas, projetando-as na lousa inteligente e compartilhando diferentes modos de resolução e achados individuais.

Não há conteúdo ou software obrigatório e o professor tem autonomia para montar sua aula. Soube de uma professora de geografia que, a partir do vídeo “Stand by Me”, tocado por músicos de rua em diferentes partes do mundo, levou os alunos a um tour virtual por todas as cidades que aparecem no clipe, através do Google Earth, observando localização, topografia, modelos dos carros, estilo de casas, etnia, arquitetura, etc., ampliando os horizontes dos alunos para muito além do livro didático e das paredes da sala.

Seria ingênuo achar que o uso da tecnologia é a solução dos problemas do ensino público e privado. Não é e está longe de ser. Mas, é inegável que inserir de forma planejada uma ferramenta que hoje é presente em todo o planeta - menos nas escolas - aproximará mais as salas de aula da realidade dos alunos. Prender a atenção de uma turminha que nasceu megabitizada tem sido cada vez mais difícil. Culpam-se todos, os pais que não educam, o excesso de açúcar, o celular, mas o fato é que aumenta a cada dia a distância entre o que se aprende na escola com o que se vê no mundo e, ingênuo, é querer que a meninada fique 5 horas olhando para uma lousa verde, pelo simples “amor ao estudo”.

São José está dando um primeiro passo. Não será um passo fácil. A proposta exige o engajamento e a conscientização das famílias, não só para os cuidados com o equipamento, mas também para o monitoramento do uso dos tablets em casa. Para isso, a prefeitura montou um ônibus equipado com uma réplica da sala de aula multimeio, que visitará as comunidades apresentando o projeto aos pais. Há também bloqueio de pornografia e um app que permite aos pais gerenciar o equipamento.

Mas o pulo do gato será capacitar o professor. Novas ferramentas exigem novas práticas. Por exemplo, um professor acostumado em encher o quadro com textos para os alunos copiarem, se continuar fazendo o mesmo, vai continuar tendo alunos irriquietos, distraídos e provavelmente indisciplinados. E não há tecnologia do mundo que resolva. Mesmo porque, o sistema salva as aulas e compartilha com os tablets, portanto se a cópia já não fazia sentido na época da caneta e do caderno, imagina agora.

Acredito que leve um tempo para que o professor se familiarize com o equipamento, mas acho que as respostas por parte deles serão rápidas. O saber do professor é imenso e esse saber está sendo não apenas respeitado, mas valorizado. Ter disponível em sala ferramentas que permitam que ele enriqueça sua prática com os recursos do mundo digital, lhe abrirá um universo de novas oportunidades. E, o mais curioso, é que os estudantes terão um conhecimento a mais que os mestres. Eles já vem de casa capacitados para usar o equipamento e saberão, sem dúvida alguma, operá-lo com mais facilidade que os adultos. Portanto, o professor que for aberto para a colaboração dos alunos, terá mais um fator de aproximação a seu favor, colocando todos como mestres e aprendizes, numa linha horizontal de troca de saberes.

Há dois pontos que incomodam. As escolas estaduais não fazem parte do programa, criando na cidade os “com” e “sem tecnologia”. Pergunto também o que será desses meninos e meninas ao terminar o fundamental neste novo universo e ingressar no ensino médio "quadro negro e giz" das escolas públicas e de muitas particulares. Será um “de volta pro passado” caótico e cruel.

Mas tirando a eterna falta de sincronia entre governos estaduais e municipais, estou empolgada e quero acompanhar de perto o que vai acontecer. Se vai dar certo? Não sabemos, mas como disse nosso vizinho, Presidente Mujica, como evoluir sem experimentar? São José dos Campos está liderando uma experiência inovadora em educação, principalmente, por acreditar na autonomia e na capacidade dos educadores e dos alunos. Também por usar dinheiro público para a construção de  saber.

Só isso já é algo lindo.


Grafite de Jakub Halun



12.5.14

Músico de rua.




Músico de rua.


É do tipo de mãe que procura apoiar o filho em todas as suas iniciativas. 

Aos cinco ou seis anos, o menino inventou de tocar um instrumento na rua, como os músicos que via nas idas ao centro da cidade. E levaria seu chapéu de mágico para colher as moedas que por acaso alguém lhe desse. 

A mãe comprou a ideia na hora. Achava positivo ele viver essa experiência. Foram até a praça central e escolheram um cantinho movimentado para o garoto tocar. Puseram o chapéu para os trocados e combinaram da mãe ficar meio afastada, num ponto onde ele pudesse vê-la. 

O menino começou a tocar sua concertina e logo chamou a atenção dos transeuntes. Uns achavam fofo aquele menino tão pequeno e tão concentrado em tocar seu instrumento. Outros sorrindo lhe davam moedas ou guloseimas. Alguns paravam pra ouvir. 

Ficaram ali uma meia hora. O menino encarnado no papel de músico e a mãe orgulhosa espiando de longe.

Até que um guarda se aproximou e perguntou se ela era a mãe do menino. Custou para ela entender a pergunta. Moravam há alguns meses nesse novo país e ela ainda não dominava a língua.

Quando finalmente entendeu e respondeu que sim, o policial pediu que ela o acompanhasse até a delegacia. Explorar menor é um crime que eles levavam muito à sério, ainda mais se feito por estrangeiros. Esse povo imigra pra cá e acha que pode fazer o que quer.

Ela sorriu e tentou explicar que era casada com um local e que o menino estava apenas brincando. Um jogo simbólico…Symbolic game, undestand? No exploration!

Mas diante do chapéu com algumas moedas, não houve argumento que o convencesse. Levou mãe e filho pra delegacia, onde ninguém conseguia entendê-la. Teve que ligar para o marido e pedir socorro. Óbvio que o esposo quase teve uma síncope. Onde já se viu levar o filho pra tocar na praça…isso lá é brincadeira? Viver uma experiência?! Eu que estou vivendo a experiência de sair do trabalho no meio do dia pra tirar minha mulher da cadeia!

Saiu de lá fichada. Com todos lhe apontando os dedos e lhe dando pitos. Para o delegado, outra dessa e seria deportada. Para o marido, a esposa era mais louca do que jamais supôs. Para o guarda, mais uma prova de que o país deveria fechar as fronteiras.

Só o menino saiu sorridente. Tinha vivido sua mais completa aventura. Músico de rua e fora da lei, todos no mesmo dia. Sua mãe era o máximo!





15.4.14

Bafômetro




Bafômetro


Mães se encontram para uma tarde de amizade e filhos.

“Menina, te contei que fui parada na blitz do bafômetro?”

“Não! E aí?”

“E aí que eu estava voltando de um jantar e tinha tomado umas cervejinhas.”

“Jura?! E você foi pega?”

“Vai escutando…eu disse pro guarda que tinha visto um documentário sobre o assunto e que não era obrigada a produzir prova contra mim mesma.”

“E ele?”

“Ele riu e disse que ia ter que me levar. Não sei pra onde, mas ia me levar. Daí ele me perguntou, bem na boa, se eu tinha bebido.”

“E você contou?”

“Ah, contei que tinha bebido uma ou duas cervejinhas e que não ia fazer o teste nem morta. Ele foi bem solidário, sabia? Disse pra eu relaxar e soprar que podia dar bem baixo e isso não era tão grave. Eu pedi um tempo para pensar. Encostei o carro e fiquei ali parada sem saber o que fazer. Rezei pra tudo que é santo. Até que passou um tempo e ele voltou dizendo que não dava mais pra esperar. Ou eu soprava ou ele me levava."

“O que você fez?"

“Resolvi soprar. Lembrei do Pilates e soltei todo o ar que tinha no pulmão. Depois puxei um ar purinho, sem tragar, soprei e deu zero!”

“Zero?! E o guarda acreditou?”

“Ele festejou comigo e saiu contando pra todo o pelotão. Daí um policial lá do outro lado berrou que com a minha massa corporal só podia dar zero. Pode?! Não basta bêbada, também me chamam de gorda!”

A outra quase chora de rir. 

“Você veio de carro?”

“Não. Viemos a pé. Por quê?"

“Então, vamos tomar uma cerveja e você aproveita e me ensina essa técnica de puxar um purinho sem tragar. Vai que me param um dia.”



11.4.14

TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe


TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe

O menino sempre foi muito esperto e inteligente. Mas não tinha uma relação tranquila com a escola. Apesar de mais velho da turma, foi um dos últimos a ser alfabetizado. Era distraído, irrequieto, ao mesmo tempo participativo, do tipo que sempre se destaca na classe, mas quando chegavam as notas, estava sempre na média, ou abaixo dela.

Em casa, só parava quieto pra jogar videogame. A tarefa era um transtorno. Levava horas para fazer um exercício facilmente solucionável em 15 minutos. E sempre a pulso. 

Os pais e a escola conversaram algumas vezes. A conversa sempre muito boa. O menino é mesmo desatento, nada fora do normal, mas é preciso sempre “buscá-lo”. Traçaram combinados de ações conjuntas. E tudo caminhou relativamente bem, respeitando-se o ritmo e o jeito do menino, até que veio o famigerado quarto ano.

A escola construtivista não aplicava provas até o terceiro ano. Esse processo de avaliação iniciava-se apenas no quarto. Foi quando as notas começaram a despencar. E o clima em casa pesou mais ainda na hora da tarefa. 

A mãe insistia para que ele estudasse mais. Ele esperneava, jogava livros longe, fazia birra, chorava, gritava. A mãe tentava se manter tranquila, mas de vez em quando explodia. O pai intervinha. Deixa comigo, eu estudo com ele. Mas no final, vinha mais um bilhete avisando que o menino estava de recuperação.

O padrão se repetia. Escândalos em casa, má vontade, provas mal resolvidas, conversas com a professora, indicação para ele ler mais e outra recuperação.

Até que um dia, a mãe sentou-se com as provas na mão e começou a analisá-las. Algo lhe chamou a atenção. Em todas elas, respostas “viajandonas”. Criativas, mas nada a ver com o que estava sendo pedido.

Percebeu que ele interpretava textos sem lê-los, respondia sem prestar atenção na pergunta, pulava introduções e cabeçalhos.

Teve um clique. O menino sabe a matéria. Ele não sabe é fazer prova!

A partir daí, mudou sua postura nas tarefas. Deixou de querer que ele aprendesse a matéria, isso era com a professora. Começou a ensiná-lo como se faz prova: leia o texto antes de responder. Preste atenção na pergunta. Só responda depois de entender o que está sendo pedido. Releia o que escreveu. Não, não é para escrever sua opinião. É para responder o que está no texto...sim, eu sei que você sabe a resposta. Mas é para dar a resposta do texto e não a sua. 

No começo foi um sofrimento! O menino se enfureceu ainda mais. Berrava que não precisava ler os textos porque a professora explicava em sala. Ficava bravo a cada resposta apagada que precisava ser refeita. Mais ainda quando a mãe se recusava a ajudá-lo e o fazia procurar no livro, dessa forma, obrigando-o a ler.

A mãe entendeu que a fúria aumentou porque finalmente eles tinham acertado a abordagem. O menino estava confortável na estratégia que o tinha levado até ali. Não queria mudá-la. Lutava para ninguém mexer no seu queijo.

Mantiveram-se firmes e aos poucos, bem aos poucos, ele foi entendendo e se acalmando. “Essa resposta eu posso falar o que eu acho, né mãe? Está perguntando a minha opinião. Ai, que saco, tem que justificar também?!"

E foi depois de muita resposta apagada, muito texto relido, que o menino chega excitado da escola. “Tirei a nota mais alta da classe em português!!!! Eu sou o cara!!!”

A mãe quase não acredita. Mais do que feliz pela nota, ficou feliz pelo efeito na auto-estima do menino. Ele estava radiante. Foi só então que percebeu como ele se ressentia dos maus resultados anteriores.

Abraçou-o e comemoraram o resultado de tanto esforço. Enquanto o menino corria para mostrar a prova ao pai, a mãe pensou que bastou prestar atenção de verdade nele para entender melhor o problema. Seu filho não era desatento. Desatentos tinham sido os adultos responsáveis pela educação dele. 

Sabia que a luta não estava ganha. Mas pelo menos agora sabiam que rumo tomar.


11.3.14

Miley Cirus, coma feijão.



Miley Cirus, coma feijão.

Família reunida em volta da mesa para o almoço de domingo. A pequena, de sete anos, começa a cantarolar uma música enquanto se move sensualmente na cadeira e lambe a colher de um jeito suspeito.

Um segundo de constrangimento e a mãe entra em cena do jeito mais natural que consegue: 

"Filha, que é isso?" 

O primo, da mesma idade, responde por ela: 

"Tá imitando aquela cantora que canta PELADA aquela música da bola." 

"Ãhn?! Que música, que bola?" 

As crianças descem da mesa e voltam correndo com um tablet. 

"Olha, mãe, o vídeo da Miley Cirus...tá vendo..." 

A família se reveza para assistir ao clipe que mostra a ex-personagem da Disney, Hanna Montana, balançando nua numa bola de demolição enquanto lambe um martelo de forma bem sugestiva.

Tentando se recompor do susto por "aquilo" estar no tablet dos titicos, a cunhada comenta: 

"Nossa, mas por que ela lambe o martelo?" 

É a deixa para a mãe tentar recuperar o controle da situação.

"Por que ela tem uma doença que faz com que ela lamba tudo quanto é coisa de ferro que ela vê pela frente." 

O sobrinho revira os olhos e bufa, "Ai, que mentira!"

"Verdade! É uma doença muito grave chamada...", ela pausa para pensar. 

A cunhada vem socorrê-la, "Anemia. Essa doença se chama a-ne-mi-a".

"Isso, anemia! É uma judiação. Ela tem tanta falta de ferro no corpo, que lambe tudo que é de metal. É uma compulsão. Ela já teve muito problema por causa dessa doença...outro dia li que ela lambeu o postinho do metrô e teve diarréia. Imagina! Aquele poste todo mundo põe a mão, é imundo! A diarréia foi tão forte que ela teve que cancelar show."

A menina olha desconfiada, "Mãe, você tá falando verdade?". 

"Claro que estou! Essa moça devia se tratar. Agora, vamos comer feijão. Bastante feijão, porque um feijãozinho feito na panela de ferro é ótimo pra anemia!"

"Isso, mas é para comer o feijão e não lamber a panela, viu! Ouvi falar que a Miley Cirus fez isso num restaurante e queimou a língua. Teve que sair de ambulância e ficou um mês sem cantar", conclui a cunhada.

"Nossa, coitadinha!"

"Coitadinha, mesmo. Esse negócio de anemia não é brincadeira. Passa seu prato, anjinho...e dá aqui o tablet pra mamãe guardar".




































































































26.2.14

Quem escolhe a escola são os pais.



Quem escolhe a escola são os pais.

O menino chega em casa afoito: 

- Mãe, no ano que vem, quero mudar de escola. Você me coloca no Octógono?

- Ué, mas você adora sua escola! É por causa dos seus amigos, não? Alguns vão para lá no ano que vem e você não quer se separar deles. 

- É, mãe. Todos os meus amigos vão estudar no Octógono e eu não quero ficar sozinho. 

A mãe nega e a batalha começa. O menino pede, implora, tenta negociar, chora e faz malcriação. A mãe argumenta que ele fará novos amigos. Mas nada adianta e a insistência quase a leva à insanidade. 

Ela se afasta aborrecida e quando a coisa esfria, chama o garoto pra uma conversa. 

- Eu sei que você quer muito ir pro Octógono. É uma boa escola, alguns de seus amigos estão indo e você gosta demais deles. Também estou sabendo que um de seus melhores amigos vai pra lá e isso deve doer muito. Em você e nele. Mas, seu pai e eu levamos muito tempo escolhendo a escola que achamos melhor para você e para nossa família. E nós acreditamos que essa que você está hoje está lhe dando a melhor educação. Por isso, você vai continuar lá até o nono ano. 

- Até o nono ano?! NÃO! EU que escolho onde EU quero estudar. 

- Não, filho. A escolha da escola é uma responsabilidade dos adultos e não sua. Os filhos podem até opinar, mas quem tem que decidir são os pais. E nós temos que avaliar muitas coisas, além dos amigos. Se deixássemos para você escolher, estaríamos lhe dando uma responsabilidade que não é sua. É nossa! E você ainda não está pronto para assumir tamanha responsabilidade! 

O menino insiste. Quer saber o que a escola atual tinha de tão melhor. Argumenta, tece teorias, faz promessas e, diante das negativas, solta como se não tivesse escutado nada do que a mãe falou: 

- Você é uma chata! Mandona! Por que eu não posso estudar no Octógno, manhê? Você quer que eu fique forever alone!

A mãe decide que é hora de encerrar a conversa e tratar o assunto como mais um desejo que não será realizado, assim como fez com o aifone 5S e a quarta bola de sorvete: dizendo não e ignorando o esperneio. 

Tomada de uma estranha serenidade, achou que a decisão foi até fácil. Ela ocupando seu lugar de mãe e ele o de filho. Suspirou, imaginando como a vida seria mais simples se, nas demais escolhas, os papeis de cada um fossem assim tão claramente definidos. 





4.12.13

Mãe, você é incompetente.




Mãe, você é incompetente.

Você não vai conseguir parir. Mas não se preocupe, médicos treinados e maternidades equipadas tirarão esse bebezinho da sua barriga num piscar de olhos, sem correr risco de você atrapalhar o parto ou o final de semana da equipe. 

Você não vai conseguir amamentar. Mas não se preocupe, multinacionais da maior idoneidade produzem mamadeiras e fórmulas sensacionais, que alimentarão seu bebezinho até melhor que essas suas tetas. 

Você não vai conseguir cuidar da família e da carreira. Mas não se preocupe. Uma extensa rede de babás, berçários e escolinhas darão café da manhã, almoço, banho, janta e colo, para que seu filho cresça feliz e você não perca o foco. 

Você não vai ter tempo para fazer comida caseira. Mas não se preocupe, nas prateleiras das melhores casas do ramo você encontrará potinhos de comida pronta tão deliciosa, que seu bebê nem vai perceber que não foi preparada na sua cozinha. 

Você não vai conseguir convencer seu filho a comer alimentos saudáveis. Mas não se preocupe. Os sucos de caixinha são a pura fruta. Os biscoitos não tem gordura trans. As redes de fast food agora servem frutinhas. Bolos prontinhos são praticamente como os da vovó. E não há deficiência alimentar que um bom copo de achocolatado não corrija. 

Você não vai conseguir entreter seu filho. Mas não se preocupe. Canais infantis, aipodi, aipedi, aibuque, uí, ds, ps e atividades extra-curriculares de A a Z ocuparão todo o tempo do seu pequeno sem que você consiga entediá-lo. 

Você de vez em quando vai tentar fazer as coisas de outro jeito. Mas não se preocupe. Parentes, especialistas, profissionais e palpiteiros vão ajudá-la a recuperar o bom senso, criticando-a, enchendo-a de temores, chamando você de louca, antiquada e imprudente. 

Porque, mãe, hoje é tudo muito mais fácil. O mundo evoluiu e a maternidade precisava acompanhar. Para que sofrer, não é mesmo? 

E você ainda pode pagar no crédito, débito ou boleto.




Imagem tirada daqui.