
Na semana da amamentação, que aconteceu no início de agosto,
o texto "Amamentar não é um ato de amor", voltou a ser tema de algumas discussões na rede.
Agradeço a todas a mães,
como a Pérola - do Mamãe Antenada, a sensibilidade com que colocaram novamente em debate a ligação entre amamentar e amar.
Amamentar é um ato de amor? Claro que é. Assim como muitos outros. Ninar, acalentar, consolar, dar um banho gostoso, fazer shantala, preparar uma comidinha caseira, tocar, proteger...todos são atos de amor. Mas nenhum deles tem hoje a mesma dimensão que a amamentação ocupa na mente e no coração das mães da nossa sociedade.
Por isso mesmo, a
Vera Pileggi Vinha, minha mãe, quando estava nos últimos anos de uma vida dedicada ao estímulo ao aleitamento, foi contra usar este apelo como tema das campanhas pró-amamentação.
Por quê? Porque ela identificou que este apelo tinha dois efeitos devastadores: enchia de ansiedade as mulheres inexperientes de uma sociedade cada vez mais distante da naturalidade de se dar o peito. E torturava as mães que, por algum motivo, não conseguiam amamentar.
Sua última cruzada foi colocar-se na contramão deste tipo de apelo e afirmar que amor pode ser dado de inúmeras formas. Pais, avós, mães adotivas transbordam amor, sem que jorre sequer uma gota de leite de seus peitos. Garantir uma maternidade mais "amorosa" para quem é bem sucedida em amamentar era, no ponto de vista dela, injusto e cruel com as demais.
Seu objetivo era acalmar as mães e mostrar aos especialistas e comunicadores que não se aleita com tranquilidade quando se carrega no peito o peso de amar a mais ou a menos seu filhote.
Amamentar é optar pelo melhor alimento, dizia ela. Amar é outra história. E misturar as coisas é complicar o que a natureza fez simples.
Concluo com 2 exemplos que vivenciei nos últimos anos:
A primeira mãe, psicóloga, sem parentes na cidade, chegou na minha casa arrasada. Seu bico rachou de uma maneira tão dolorida que tanto o pediatra como as conselheiras do
Projeto Casulo, de São José dos Campos (excelente grupo de estímulo ao aleitamento) recomendaram que ela parasse de amamentar por uns dias, até o bico cicatrizar. Quando ela voltou a amamentar, cerca de 2 semanas depois, o bebê passou a recusar seu peito. Quando ela me procurou, estava ferida na alma. Se sentia rejeitada, impedida de dar-lhe amor, culpando-se por não ter conseguido aguentar a dor e manter o bebê no peito naquelas duas semanas. Cada tentativa de dar o peito virava um embate, com o bebê e a mãe nervosos, irritados e ambos chorando muito. Torturada, a mãe questionava o desenvolvimento afetivo, a questão da oralidade, da troca amorosa etc. A situação emocional evoluiu a um ponto que o ginecologista prescreveu-lhe antidepressivos. E o bebê acabou completamente desmamado aos 2 meses.
A segunda mãe, empregada doméstica, tem a sorte de carregar o DNA baiano de ir levando a vida da forma com que ela se apresenta. Seu bebê convulsionou no berçário e acabou ficando internado em observação também por 2 semanas, sendo alimentado com mamadeira. Mesmo assim, essa mãe conseguiu amamentar seu filho até 1 ano. Fiquei curiosa e quis saber como ela fez para introduzir o aleitamento, sozinha em casa, 15 dias depois do parto. "Ué, se ele não mamasse ia morrer de fome. No começo ele não queria. Mas eu insisti, insisti, até ele pegar. Chorava, eu punha no peito...não tinha dinheiro pra comprar leite, não! Uma hora ele entendeu e pegou." E ri, tranquila.
E vocês, queridos leitores e fãs do aleitamento, também entenderam?
Sugestão de leitura:
Debate sobre a amamentação no grupo Cria "Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar." Assine!
www.grupocria.com.br