18.5.15

Tijolo nos dentes





Tijolo nos dentes

O menino se aproxima: “Mãe, você sabia que o Mc Pedrinho, Mc Brinquedo e o Mc Pikachu estão sendo processados?”

A mãe franze a testa. Não tem a menor ideia de quem são Pedro, Brinquedo e Pikachu. Mas cumpre à risca seu papel de mãe interessada. “Jura?! E por quê?”

“Porque eles tem doze anos e trabalham. Dão show às três horas da madrugada, acredita? E cantam umas músicas muito nada a ver.”

“Como assim nada a ver?”

“Ah, mãe…coisa de sexo…posso cantar? Você não me dá bronca?”

“Pode.”

O menino respira fundo e canta meio titubeante, sem fazer contato visual, “Roça, roça o peru nela que ela gosta…”

“Que horror! E onde você escutou isso?”

“Mãe, todo mundo escuta. O Fulano, meu amigo, canta o tempo todo. Na frente da mãe dele e até da professora!”

A mãe arregala os olhos: “Da professora?!”

“É, ela deu a maior bronca. Mas é ele, né, mãe. Eu não faço nem morto, porque sei que você me quebra!”

A mãe franze a testa, de novo. Ia logo perguntar “Eu te quebro?”, mas preferiu se calar por um instante. Achou intrigante. Nunca deu nem uma “simples” palmada num filho e não acredita na educação que precisa de violência para acontecer. É totalmente a favor da Lei da Palmada, que proíbe que os pais batam nos filhos. Então, de onde o menino tirou que ela iria quebrá-lo?

Lembrou-se do dia que a faxineira chegou super indignada na empresa em que ambas trabalham. Ela tinha presenciado o filho de uma cliente ser extremamente mal educado com a mãe e não se conformava com a grosseria do menino. “Filho meu nunca fala assim comigo porque sabe que leva uma tijolada nos dentes.”

Aquela frase ficou gravada na memória. Sabia que a mulher falava no figurativo, mas ela lhe ensinou que havia um limite claramente traçado com tijolo o qual os filhos dela sabiam que não podiam ultrapassar. Invejou-a. No meio onde ela circula, de pais que refletem demais, a ponto de muitas vezes terem dúvidas de como agir, aquela frase lhe fez pensar na delícia de criar filhos sem pisar em ovos. Nunca quis que os filhos a temessem, mas pensando bem, um medinho, um “prestenção, moleque” até que não seria nada mal. 

O hábito, contudo, foi mais forte e ela optou pela técnica de orientar levando o filho a refletir:

“Filho, cantem essas músicas entre vocês, quando estiverem sozinhos. Na frente da professora é uma bruta falta de respeito. E na frente de meninas então, nem pensar. É muito ofensivo.”

“Ah, mãe, outro dia o Fulano cantou e elas deram risada.”

“Deram risada porque ainda não pensaram no que isso significa. Nenhum homem pode encostar o pinto numa mulher sem ela querer. É mentira que as mulheres gostam. Já imaginou, no ônibus, na rua, um cara chegando e encostando o pinto em mim ou nas suas amigas. É horrível! Só se a mulher quiser e deixar. Não canta essas músicas perto de mulher nenhuma, porque é supergrosseiro. E não tem graça.”

O menino bufa, “Eu não canto, já disse. Eu sei que você me quebra.”

A mãe, respirou fundo e ia retomar a pregação. Mas pensou melhor e disse:

“Exato. Te quebro. Dou-lhe uma tijolada nos dentes. Fica esperto”.

O menino saiu dando risada. Ao longe, a mãe ainda o ouviu cantarolar uma canção. Sem roça roça ou peru.

12.3.15

Linda





Ela era feia. 

Tinha um rosto judiado e pernas curtas e finas que pareciam mal encaixadas sob a barriga larga. O sorriso exibia dentes escurecidos, talvez por café ou cigarro. O cabelo preso atrás mostrava a raiz pedindo tinta. A pele exibia vincos do tempo e da vida.

Conversamos rapidamente no intervalo de um curso de pães caseiros.

Me contou que fazia o curso para começar a vender pães e aumentar a renda. Disse animada que fazia de tudo para viver. Artesanato com bisqui, lembrancinha para batizados e casamentos, arte em feltro, bijuteria e até unha e cabelo no pequeno salão de beleza montado na garagem de casa. Contou que também costurava roupinhas de boneca e nessa hora seus olhos brilharam…adorava recuperar as bonecas que as amigas e vizinhas lhe traziam. Dava banho, passava condicionador no cabelo, maquiava, punha roupa nova, sapatinho, tirava manchas de caneta. Sua última restauração foi uma Dorminhoca linda, que agora fica em cima de sua cama e ninguém pode mexer. Nem a neta. E essa é a única coisa que a vó proíbe a neta de fazer.

Disse que não tinha medo de trabalhar e que nunca recusou uma encomenda. “O que me pedem pra fazer, eu faço. Se não sei, aprendo, viro noite, mas entrego”.

Para dar conta de tudo, explicou que seu dia começava cedo e acabava tarde, porque ainda cuidava do pai idoso.

De repente, ela abriu um sorrisão: “Minha única pausa é para entrar no Face para namorar.”

Ela explicou que tinha muitos namorados, todos estrangeiros, da Índia, da Coreia, da Rússia, da Irlanda. Eles se falavam sempre por mensagens. 

Perguntei sobre a diferença de língua e ela foi categórica: “Aviso logo de cara que ‘no ispique inglis…ispique português’. Se quiserem falar comigo eles tem que se virar. Então eles usam o Google Tradutor e copiam e colam tudo…menina, é um rolo, mas nenhum até hoje desistiu.” E o sorriso virou uma risada.

Disse que já teve namorado da gringa que quis vir buscá-la, que tinha barco, casa na praia, mas ela foi enfática: “Nem pensar!” Explicou que queria namorar só pelo Face. Seus olhos se encheram de lágrimas para dizer que já sofreu muito e que não quer mais homem real na sua vida.

Contou que venceu um câncer, que lhe deixou como sequela uma hérnia enorme na barriga, que nenhum médico quer operar. E que esteve sozinha durante todo o tratamento, porque o marido a abandonou e a irmã achava que ela estava de frescura para chamar atenção.

Nessa hora as lágrimas escorreram “Menina, você acha que alguém faz frescura com uma doença dessas?!” 

Continuou dizendo que isso não a derrotou. Encarou a luta, ia de ônibus fazer quimio, buscava remédio no postinho e mesmo com muito enjoo não faltava aos retornos. Hoje estava ali, cheia de energia e de namorados, desejando para todos apenas coisas boas. “Eu entro no Face para alegrar as pessoas. Coloco uma flor, uma frase que acho bonita, um desenho, um coração. Esse mundo tem coisa ruim demais, então, quero distribuir só bons pensamentos. E as pessoas gostam. Gente que eu nem conheço me escreve agradecendo e conta que estava tendo um dia péssimo e depois de ver o que postei, se alegrou.”

Seguiu me contando episódios engraçados, como a fila que fazia para bater papo quando ela se conectava. E da confusão com o tanto de janelas de chat abertas. Às vezes confundia as repostas e a conversa de um ia parar na janela do outro. 

Demos muita risada e logo o professor nos chamou para ver os pães que saiam do forno. 

O curso acabou e nunca mais a vi. Esqueci seu nome e dela tenho apenas uma lembrança.

Ela era linda.


9.2.15

Piolhinha






Piolhinha


A classe dos pequenos padecia com uma infestação de piolhos. 

Todos os esforços que estavam sendo feitos para resolver o problema pareciam ser em vão. A escola mandava bilhete, os pais tratavam, os piolhentos eram afastados alguns dias e devolvidos sem sequer uma lêndea, mas logo os bichinhos voltavam a atacar sem piedade o couro cabeludo da meninadinha.

A mãe não aguentava mais. Sua filha parecia que tinha néctar para atrair piolho. Era mandar pra escola que voltava coçando a cabeça. 

Resolve tomar uma atitude. Ela era muito boa nisso.

Encontra a professora na porta da sala e, num momento privado, dispara:

- Escuta, não é possível isso que está acontecendo! Com certeza tem um foco, alguma criança que a mãe não está tratando. Quem é?

A professora olha para um lado, olha pro outro e solta num cochicho: 

- A Fulaninha. Você sabe, a mãe dela é supernatural. Tipo super mesmo…não gosta de produtos químicos e se recusa a passar qualquer coisa na cabeça da menina. Dá pena de ver o tanto que ela se coça.

- Pô, mas nem um vinagre com pente fino?! Quer algo mais natureba que isso?

- Nada. Já tentamos de tudo. Ela se recusa, diz que o corpo da menina vai se equilibrar e expulsar o piolho sozinho. O pior é que a pobrezinha tem um cabelo enorme! Impossível não encostar nas outras crianças. A gente até prende, faz um coque, mas não adianta.  Estamos evitando suspendê-la, mas não sabemos mais o que fazer.

Depois de prometer que a conversa ficará entre elas, a mãe se despede e sai matutando um plano. Ela também era muito boa em ter ideias.

Na mesma tarde, liga pra mãe paz e amor e convida a pequena Gal Costa para ir brincar em casa depois da escola. 

Tudo arranjado, ela pega as meninas na saída e, no caminho, dá uma paradinha na farmácia.

Chegando em casa, as meninas brincam um pouco e depois de um lanchinho, a mãe sugere:

- Vocês não querem brincar na banheira? Tenho giz de cera de azulejo e esse canudo de fazer megabolhas de sabão!

As meninas topam e enquanto brincam, a mãe vai espumando o cabelo das duas, delicadamente, com shampoo de piolho. Depois “desembaraça” com pente fino, fazendo esculturas engraçadas e penteados de princesa.

Repete a brincadeira na semana seguinte e na outra, só por precaução.

A infestação de piolhos foi milagrosamente controlada e, para todos os efeitos, o corpo da menina se equilibrou e expulsou sozinho o inimigo. 

Só que não.

3.2.15

"Ensina-me a proibir"


"Ensina-me a proibir"

Nas escolas e universidades da idade média, tocadas pela Igreja, um conselho de padres e bispos se reúne e decreta: “está proibido o uso dos livros nas salas de aula. Com os livros, nossos alunos se distraem, não prestam atenção, tem acesso a conteúdo inapropriado, compartilham um conhecimento que muitas vezes desconhecemos. Com os livros, perdemos controle.”

Mudem a cena para 2015, coloquem os tablets e celulares no lugar dos livros e não é difícil concluir que estamos vivendo a mesma situação. 

Enquanto algumas escolas estão incorporando as tecnologias portáteis no seu dia-a-dia, outras estão proibindo seu uso dentro dos muros. Não pode nem no intervalo e nem na saída. O motivo é praticamente o mesmo dos educadores medievais: medo da perda do controle.

Aí vem a reflexão: tablets e celulares estão aí e ninguém mais duvida que vieram pra ficar. A internet também está aí e em breve será tão onipresente que as próximas gerações não conseguirão mais imaginar como era a vida desconectada. 

A proibição desse equipamento em sala de aula é o último gemido de uma instituição que há tempos agoniza. Ainda mais quando esse proibição vem de escolas que se autonomeiam “humanizadas”, que educam “para a vida”.

Para a vida? 

Pois saibam que a vida real tem sido cruel com quem faz mal uso destes equipamentos. É alto o índice de jovens demitidos no primeiro emprego por uso inadequado do celular. Pré-adolescentes estão compartilhando fotos nuas e virando motivo de chacota que durarão anos. Há casos e casos de vingança através de sabotagens feitas com senhas compartilhadas e vídeos privados jogados na rede. O cyberbullying hoje é uma praga que aterroriza muita gente, só para citar alguns. 

E o que a escola faz para educar seus alunos a sobreviver com gentileza, alegria e competência na vida digital? Proíbe.

Fecha os olhos. Faz que não é com ela. Estudos mostram que os adultos são os últimos a saber o que acontece na rede adolescente. Nossos filhos preferem não nos contar, a perder o equipamento. Quem fica sabendo de perseguições, exposições, sacanagens e afins, são seus pares. Gente da mesma idade. 

Neste cenário, quer ambiente melhor para que as crianças e adolescentes reflitam sobre o uso consciente destes equipamentos do que a sala de aula? Alguns países do mundo, como a Espanha, tem desenvolvido programas educativos só para atender a esta nova demanda da civilização moderna. Organizam grupos de reflexão entre os jovens, assistem vídeos, treinam “cybermentores” (adolescentes mais experientes que participam dos grupos virtuais e estão atentos ao mau uso, sendo também capacitados para intervir ou pedir ajuda).

Isto é olhar de frente para o problema. É permitir que os jovens vivam o conflito e aprendam com ele.  Desenvolvam habilidades que lhes serão úteis para o resto da vida.

Que a situação pede controle no uso, é indiscutível. Mas esse controle precisa ser pensado caso a caso. E não por decreto ditatorial banindo o uso. 

A experiência de escolas que liberaram geral, mostra que cada professor acaba desenvolvendo sua própria relação com os equipamentos e os alunos. Alguns incorporam na rotina da sala. Outros proíbem. Alguns liberam em alguns momentos e pedem que guardem na mochila em outros. Alguns dão umas bruta aulas. Outros se perdem. Não há receita para o bolo. E tem vezes que o resultado é mesmo frustrante. O importante é termos consciência que vivemos no período de transição e que estamos todos juntos, no barco, aprendendo com se usa este novo remo. 

Ensinar a remar dá trabalho. Exige pessoas presentes, que prestem atenção nos alunos, que os chamem para uma conversa em caso de abuso. Que se posicionem com firmeza na hora de dizer não. Que estabeleçam metas e limites. Que celebrem conquistas. Que enxerguem os estudantes como seres humanos em formação e atuem verdadeiramente para formá-los. 

A escola precisa ser parceira dos pais na conquista desse novo universo que se abriu com as tecnologias. Proibir é nos deixar sozinhos diante do imenso desafio que é educar nossas crianças num mundo cibernético que mal compreendemos. 

É perder a noção. E, talvez, muito em breve, a função.








26.10.14

Sair do armário é libertador.





Sair do armário é libertador.


Assumir que você vai votar num candidato do PT não é fácil. A pressão contrária é imensa.

As pessoas na sala de jantar presumem que por você estar ali, comendo o que eles comem, vestindo o que eles vestem, bebendo do mesmo vinho, você também tem que pensar igualzinho. 

Qualquer questionamento gera desconforto e, muitos simpatizantes da estrela vermelha, pelo bem do encontro, preferem escutar a conversa em estado “Ohmmmmmm”, sem se manifestar. 

Confesso que essa tem sido eu em muitos pleitos e rodas sociais. Mas dessa vez, escancarei. Saí do armário, mostrei quem sou, liguei o foda-se. 

“Vou votar na Dilma!”

E o que aconteceu a seguir foi incrível.

Alguns amigos se afastaram. Tudo bem, não eram amigos.

Outros se aproximaram. Ueba, a fila andou e com gente bem mais interessante.

Alguns discordaram com todo respeito. Continuamos amigos e nossa amizade ganhou transparência e um carinho sincero.

Alguns me ofenderam. Esses devolvi pro Mark Zuckerberg sem direito a retorno. Ele saberá melhor do que eu o que fazer com eles.

Alguns surtaram, deram piti, se decepcionaram. A esses fortemente recomendo um psicólogo.

Uns poucos tentaram me reabilitar. E eu disse no, no, no.

E hoje, no dia derradeiro em que decidiremos o futuro da nossa amada e idolatrada nação, quero dizer que valeu muito a pena.

A vida fora do armário não é fácil, nem livre de questionamentos, mas é mais leve, corajosa, divertida e sempre aparecerá alguém pra te dar a mão e dizer “Tamujunto!”.

Agradeço aos meus amigos gays, às Gadus, Laertes e Willys dessa linda vida. Sempre que um de vocês assume, empoderam não apenas os homossexuais. O armário é imenso e tem gente de todo tipo. 

Agradeço também azamigas ativistas, que me ensinam todos os dias que é preciso descer do muro e tomar partido. Literalmente.

Hoje vou votar na Dilma e, ganhe quem ganhar, saio dessa campanha me sentindo vitoriosa. Escolhi meu lado, o defendi e vivi uma experiência incrível de cidadania e de conhecimento. Não apenas próprio, mas também do Brasil, da sociedade que vai muito além dos muros do meu condomínio e das pessoas que estão ao meu redor. 

O lado de fora do armário é bem maior que meu umbigo. E é desse lado que quero viver e criar meus filhos. 

Que todos nós tenhamos um domingo de paz!


Imagem tirada daqui

7.10.14

O diploma de datilografia





O diploma de datilografia.

Abriu uma pasta com documentos antigos e se deparou com um diploma meio amarelado, de papel encorpado e pequenas trincas nas bordas. No cabeçalho, em letras pomposas, estava escrito “Diploma de Datilografia”.

Pegou uma xícara de chá, sentou-se e deixou que viessem as recordações.

Estava na sexta série quando a mãe a matriculou no curso de datilografia da Dona Cidinha. Lembrou-se da sala cheia de máquinas Remington, das pilhas de papel jornal que eram aos poucos preenchidas com linhas infinitas de A [espaço] Ç [espaço] S [espaço] L [espaço] D [espaço], dos dedinhos magros que voltavam para casa doloridos e sujos de tinta.

Na família era regra que os filhos fizessem o curso de datilografia quando chegassem ao ginásio. Exigência dos pais para que eles se preparassem para o futuro. 

Ironia. 

O futuro virou presente, o mundo deu mais voltas que as bobinas de fitas preta e vermelha das máquinas de escrever e o curso tão importante para sua preparação tinha virado algo exótico, sem serventia alguma na era digital.

A tentativa ingênua e fracassada dos pais em controlar o amanhã a fez recordar-se deles com carinho. E a pensar em si mesma, como mãe. Tanto esforço, tempo e dinheiro investidos na “formação” dos filhos. E o tec tec das máquinas de escrever lhe gritando: “para quê?”

O futuro é imprevisível. Alucinantemente imprevisível. Deliciosamente imprevisível. Assim mesmo, vivia cada dia da maternidade tentando prevê-lo e controlá-lo. Matriculando os filhos em cursos disso e daquilo, escolhendo escolas assim e assado, querendo a formação mais completa, mais forte, mais competitiva, mais empreendedora…decisões baseadas no que era importante no presente. E não no futuro!

P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
 P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
 P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 

Fotografou o diploma e botou de papel de parede no celular como um lembrete de que, já que estamos remando rumo ao desconhecido, talvez seja melhor colocar menos coisa na bagagem. Assim, quem sabe, não chegaremos lá tão cansados.

Agradeceu aos pais a lição e à Dona Cidinha, que se a visse hoje digitando este texto com três dedos teria um surto.



13.9.14

Barrado no shopping





Barrado no shopping

Ontem, meu filho foi barrado na entrada de pedestres do Shopping Vale Sul, em São José dos Campos.

Ele estava sozinho. Assim mesmo, o vigia colocou as mãos em seus ombros e disse que ele não ia entrar porque ali não podia “rolezinho”.

Meu filho, indignado, respondeu que aquele era um espaço público/privado e que ele tinha direito de ir e vir. Pediu então que o vigia chamasse o jurídico do Shopping para resolver a questão.

Na mesma hora, o guarda pediu desculpas e o liberou.

E eu, pra variar, fiquei com a pulga.

Meu filho foi barrado porque é adolescente, andava a pé e usava touca. 

Depois foi liberado, certamente, porque o vigia identificou no modo dele falar que ele não pertencia à categoria “moleque da perifa”.

Me pergunto o que teria acontecido se ao invés de cobrar seus direitos ele tivesse dito: “Qual foi, guardinha?!”, ou “Libera ae, tiozinho!”. 

Gestores do Vale Sul, por favor me respondam: onde, na Constituição Brasileira, está escrito que o direito de ir e vir vale somente para aqueles que se comportem e ajam como garotos de condomínio.

Onde está escrito que vocês podem barrar a entrada de meninos e meninas que andam a pé e tenham cara de pobre, seja lá quais critérios o sujeito precise preencher para que o guardinha o identifique como tal.

Ontem, se por acaso eu fosse mãe de um garoto menos instruído e articulado, teria ido dormir com o fato do meu filho não ter podido passear no shopping. E dele ter tido seu direito mais básico violado que é o fato sermos todos somos iguais perante a Lei.

O Shopping Vale Sul recentemente doou milhões para a Primeira Igreja Batista de São José dos Campos fundar uma escola para ensinar crianças e jovens dentro dos valores Cristãos.

Então, se me permitem, gostaria de lembrá-los que o mais fundamental valor cristão é amar ao próximo como a ti mesmo. 

Os senhores já se perguntaram o que Jesus diria de vocês segregarem meninos e meninas pelo simples fato deles andarem a pé e usarem touca?

E o vinde a mim as criancinhas? Já se perguntaram qual o efeito na cabeça desses adolescentes de terem seus direitos mais básicos tão rotineiramente violados? De serem tratados diariamente como sub-cidadãos? De aprenderem desde pequenos que vivem numa sociedade que não os quer? 

É muito lindo fazer caridade assinando cheque. Fica bem na foto e nos releases que vão para os jornais. 

Mas a verdadeira caridade é AGIR dentro dos preceitos cristãos. E essa eu ainda estou para ver quem pratique.

Ontem meu filho foi barrado no Vale Sul. E quando viram que ele não era um “qualquer” foi liberado.

Eu, sinceramente, ainda não sei qual das duas atitudes foi a pior.



26.8.14

Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.





Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.


Queridos educadores,

Vocês vivem nos dizendo que a relação escola família é fundamental para o aprendizado dos nossos filhos. Eu também acredito nisso. Por isso lhes peço, na próxima reunião de Pais e Mestres, não me convidem.

Prefiro não mais comparecer, pois todas as vezes que vou a esses encontros, saio achando que vocês não fazem questão alguma de se relacionar comigo.

Não me levem a mal, mas acho que a reunião de pais e mestres é um momento precioso. Compareço a todas, buscando entender melhor a proposta educacional da escola, os projetos que vocês estão desenvolvendo, a avaliação dos caminhos trilhados e saber dos planos futuros. Gosto também de escutar os desafios, as dificuldades que o grupo enfrentou, os conflitos, ouvir relatos de como os nossos filhos estão aprendendo a viver no coletivo, com todas as suas dores e delícias.

É muito legal quando a escola usa este tempo que passamos juntos para se aproximar da gente. 

Mas nossas reuniões não tem sido assim. Na verdade, tenho saído delas me perguntando o que realmente fomos fazer ali. 

Porque, vejam bem, faz sentido nos tirar de casa numa noite de semana para ficarmos sentados escutando recados que poderiam ser eficientemente transmitidos por bilhete ou email? Eu preciso ir até aí para saber que tenho que levar meu filho no horário, que ele tem que ir de uniforme e que quinta-feira é o dia da fruta? E que pesem os argumentos que alguns pais não leem bilhetes - esse momento “recadão” tem que tomar tanto tempo da reunião?

Depois vem o momento “broncão”. E grande parte da reunião é desperdiçada com broncas aos pais “coniventes” com atrasos, com celular em sala, com os filhos adolescentes que não nos entregam os bilhetes (!). 

E assim, nosso encontro se aproxima do fim. E termina sem sermos informados de quase nada da tal vida escolar que vocês querem tanto que acompanhemos.

Saio sem saber que projetos estão desenvolvendo, e assim, não consigo assistir com meu filho aquele filme que tinha tudo a ver com o tema. Não sei como está sendo o aprendizado da matemática, então acho estranho ele ainda não fazer conta armada. Desconheço que estão estudando o sistema solar e perco a oportunidade de levá-lo àquela exposição tão bacana sobre Galileu.

Entendam, professores, que vejo minha participação como algo que vai muito além de mera cumpridora das determinações da escola. Esse pai submisso que escuta o monólogo dessa instituição, anota certinho no papel e obriga o filho a devolver o livro da biblioteca no prazo, é o pai que facilita a vida de vocês. Mas não é o pai que vai fazer a diferença na vida escolar do seu aluno. 

O familiar que faz a diferença é aquele que se entusiasma com o aprendizado. Que acha muito legal o foguete de garrafa pet da aula de física e pede pra ver uma demonstração no quintal. Que dá risada de uma crônica do livro da Ciranda de Leitura. Que discute a desigualdade e as injustiças, quando o filho lê os Sertões. Que lê uma redação, sem ficar chocado que está escrito trajetória com G e sim, encantado pelo filho estar usando uma palavra difícil e ampliando seu vocabulário. 

É o familiar que compra a proposta da escola e apoia os professores, não por respeito à “autoridade escolar” e sim, porque conhece, valoriza e confia no trabalho de vocês.

Mas tudo isso, professor, só é possível se houver comunicação. Diálogo. Vocês precisam compartilhar conosco as propostas, as metas de aprendizagem, o andamento das atividades, as intervenções nos conflitos, os sucessos e as dificuldades coletivas que estão encontrando. 

Precisam nos ensinar também. Muitas coisas mudaram na didática e um tempo da reunião poderia ser usado para nos mostrar como são as novas práticas. Podem até passar um vídeo que ilustre o que estão dizendo. Desde que seja um complemento ao assunto, um exemplo de como os alunos elaboram hipóteses matemáticas ou de como trabalham em grupo, se esse é o assunto que estamos conversando. Nada de vídeos de 20 minutos de crianças sorridentes e saltitantes, porque isso é encher linguiça e não contribui em nada para a minha formação de mãe participativa.

Enquanto essa reunião não acontece, não me convide mais. Prefiro não ir e seguir na doce ilusão que a escola quer muito se relacionar comigo mas, infelizmente, não me sobra tempo.

Melhor assim.

13.8.14

Sherekas na praia.




Sherekas na praia.

Três mães tomam caipirinha na areia enquanto os filhos estão no mar pegando jacaré. 

- Gente, a Fulana veio me pedir um conselho. O Beltraninho quer ver mulher pelada e pediu que ela compre uma Playboy pra ele. Ela não sabe se compra ou não.

- Quantos anos o Beltraninho está?

- Dez.

- E o que você disse pra ela?

- Disse pra comprar logo a revista pro menino, oras!

- Ah, me desculpe, mas eu discordo.

- Como assim?

- Flor, deixa eu te dizer, mãe é mãe. Tem um código. E nesse código está escrito que não fornecemos álcool, cigarro, maconha e mulher pelada.

- É verdade. Ele que se vire. Dez anos já consegue espiar num buraco de fechadura, roubar revista da portaria do prédio…

- ...Google, flor. Vai dizer que ele ainda não aprendeu a digitar “mulher pelada” no Google?

(Risos)

- Aliás, outro dia uma amiga minha foi fazer uma busca no Google, botou a letra "S" e o Google completou "Shereka". (Risos) Foi o filho dela de 8 anos que fez a busca anterior.

- Shereka com “S”? Vai ver ele pesquisava o Shrek do filme.

- Ah, tá…mas depois ela botou "M" e apareceu “Mulher pelada beijando”.

(Risos)

- Gente, mas qual o problema dela comprar uma Playboy pro menino?

- O problema, amora, é bem simples: QUE TIPO DE HOMEM ESTAMOS CRIANDO QUE QUANDO QUEREM VER UMA XOTA CHAMAM A MÃE?

- Ai…vendo por este ângulo vocês tem razão.

- Pelo amor, lógico que estamos! E outra, eles não são separados? Se o menino der uma busca rápida na casa do pai, vai achar revista de sacanagem. 

- Flor, nem todo ex-marido é igual ao seu...

(Risos)

- Vocês me convenceram. Vou falar com ela.

- Isso, mesmo. Vamos batalhar pra melhorar o produto que estamos colocando no mercado. Tem porcaria demais na praça. 

- É isso aí. Quer almoço quentinho, eu ensino a usar o microondas. Mas onde tem mulher pelada...se vira. Sou mãe à moda antiga.



25.7.14

A observadora de mísseis.




A observadora de mísseis.

Conheci Dalal em Tel Aviv. Não sei bem sua idade. Mas é idosa e caminha com uma certa dificuldade, arrastando suas pantufas calçadas sobre meias para varizes, que vão até o joelho.

Dalal não se cobre, porque é árabe cristã. Nasceu e cresceu na região e foi testemunha de todas as suas transformações, desde a ocupação inglesa na Palestina até a formação do Estado de Israel. 

Conta que seus olhos já viram muita coisa. Guerras, revoltas, atentados, terrorista sendo arrastado vivo em motocicleta, terras tomadas e famílias apartadas. Viu a chegada dos judeus, com seus hábitos estranhos de gente que vem de terras ainda mais estranhas. Viu chegarem os etíopes e suas mulheres de rosto fino e tatuado. Viu nascer árvore onde era deserto e cidades em locais onde nem as ovelhas queriam pastar.

Se um dia os judeus fossem embora, Dalal diz que iria com eles. Diante da minha surpresa ela explica que prefere a vida daquele jeito. Diz que antes era muito difícil, muita bagunça e que em sessenta anos eles fizeram um país onde se pode andar na rua, com água, eletricidade, seguro social...Dalal olha longe e dá de ombros.

Não sei se ela repetiria essa afirmação para os da sua comunidade. Mas, definitivamente, sua confiança nos israelenses não se reflete na comida. Dalal não come nada industrializado e cozinha tudo do zero, de preferência, só com ingredientes árabes. Ela curte azeitona, faz iogurte, assa berinjelas para o babaganush, depois rega com azeite de oliva palestino que compra em garrafas pet de um mercador do bairro. Só bebe café “arabic” aromatizado com grãos de cardamomo e que nunca é coado.

Em algumas ocasiões, Dalal tocava nossa campainha e nos presenteava com um pratinho com quatro delicados charutinhos de folha de uva, um pires de picles de nabo e couve flor. Noutras, era um potinho com três pequenas esfihas e uma deliciosa porção de molho de tahine perfumado com limão siciliano. 

Quando a perna doía muito, pedia que minha irmã lhe fizesse uma massagem, enquanto isso lhe ensinava truques de culinária, como colocar um pouco creme de leite para fermentar junto com o iogurte para torná-lo mais cremoso, ou que temperos secos deviam ser guardados no freezer para manter o aroma e o sabor. Depois nos servia uma porção de kibes, que ela pronuncia kube.

Aos poucos, fui descobrindo que Dalal perdeu um filho de trinta anos, de câncer de pulmão. O moço nunca havia fumado, mas o pai dele sim. O marido de Dalal sempre fumou muito, até dentro de casa, e manteve o vício mesmo depois da morte do rapaz. O esposo faleceu há um ano e Dalal hoje vive sozinha. 

Fiquei sabendo, recentemente, que quando soam os alarmes antimíssel e a cidade toda corre para os abrigos, Dalal vai pra varanda. E fica olhando para o céu querendo ver onde o míssel vai cair.

A cena me faz sorrir. Penso que no fundo, Dalal quer que o mundo exploda. Talvez por ser a única coisa que seu olhar ainda não viu.