12.4.16

Solo pobre



O aluno de 12 anos sente-se profundamente injustiçado pela reprimenda da professora e, diante da recusa dela em ouvi-lo, deixa escapar toda sua indignação: “Ah, vai se fuder, Fulana…não fui eu que fiz isso!”

O palavrão dispara a indignação da professora que começa a berrar. Seus gritos ecoam pela escola e são ouvidos até do segundo andar do prédio - punição número 1.

O garoto é mandado para a coordenação - punição número 2.

Lá, tenta se explicar em vão. Aparentemente, nessa escola, dizer um palavrão ao professor é o mais grave delito. Tão grave que lhe priva o direito de ser ouvido - punição número 3.

Ele é mantido na coordenação durante toda a aula e recreio - punição número 4.

Recebe uma advertência para levar para casa - punição número 5.

É encontrado tempos depois pelos colegas, sozinho num canto, chorando convulsivamente. As crianças se solidarizam com o amigo. Na vergonha. No excesso das punições. Na perda do intervalo. No berros da professora. No palavrão que podia ter escapado da boca de qualquer um deles.

Temem que ele seja suspenso. Querem fazer uma camiseta “Resiste Beltrano”. 

Mesmo com tanta aridez, a meninada ainda é capaz de fazer brotar algo lindo. Imagino o que seriam capazes se o terreno fosse fértil, generoso, acolhedor.

E quando olho pra esse solo pobre, empedernido que tem a pretensão de colher gente melhor, adubando com bronca, bilhete e berro, só uma expressão me vem à mente:

“Ah, vai se fuder.”




6.4.16

Chá de Revelação



“Amoras, fui convidada para um Chá de Revelação.”

“Chá de Revelação? Qué isso?”

“Tentem adivinhar?”

“Já sei…o garoto ou a garota convida a família: vó, vô, pai, mãe, tio, primos, babá, vizinhos. Senta todo mundo na sala e, de repente, sai de dentro do armário. Revela que é gay. E as pessoas tem que levar presentes pra montar o novo guarda-roupa.”

“Ai, eu já pensei outra coisa…você convida família, amigos, galera, senta todo mundo em círculo e serve um chá tipo lírio, sei lá, desses de erva que abre a mente, sabe? Daí o chá vai circulando enquanto as pessoas compartilham suas revelações.”

“Não, gente. É uma piração beeem maior.”

“Maior? Então só pode ser reunir todo mundo pra tomar o chá revelador e, quando tá todo mundo locão, o fulano ou a fulana pula de dentro do armário.”

“Não, pior ainda. Chá de Revelação é convidar os parentes e amigos pra revelar o sexo do bebê depois do ultrassom.”

“Sério! Existe isso?! Que bizarro!”

“Menina, as pessoas hoje em dia têm cada ideia, não?! Quem ia pensar uma coisa dessas? Sexo de bebê agora é evento?”

“Como será? Tem tipo gelo seco e datashow com slides do pintoco ou do capozinho de Fusca aparecendo no ultrassom?”

“Sei lá, nunca fui em um! Mas não perco por nada!”

“É, tem que conferir. Mente criativa dessa turma, não?”

“Demais. E a gente achando que já viu de tudo…passa o chá, por favor. É camomila? Tem de lírio, não?”


29.3.16

O criado-mudo.




A mãe mexe no celular quando o filho, rapazola, se aproxima:

“Mãe, o que é isso?”

Ela responde sem olhar:

“Isso o quê?”

O moleque bufa:

“Isso! O que é isso que achei na gaveta do seu criado-mudo?!”

A mãe levanta os olhos e vê o garoto lhe apontando um objeto. Ela responde calmamente, sem mudar de expressão:

“Um vibrador. Você sabe o que é isso.”

O menino arregala os olhos:

“E o que isso está fazendo na sua cabeceira?"

A mãe ergue uma sobrancelha e, incorporando a diva de cinema mudo, devolve calmamente:

“Você quer mesmo que eu te explique?”

O adolescente franze o rosto com asco:

“Ai...que nojo! Você é minha mãe! Eu não estou pronto para saber dessas coisas.”

A mãe estica a cabeça e faz cara de quem não está entendendo:

“Bom, se você não está pronto, por que mexeu no meu criado-mudo? Não sabe que em criado-mudo de mãe não se mexe? Criado-mudo é zona proibida. Você procurou e achou. Agora seja mocinho e lide com esse fato da vida.” 

O menino exclama indignado:

"Da minha vida, né?! Porque tenho certeza que as mães dos meus amigos não têm um negócio desses na cabeceira."

A mãe sorri:

"Não sei. O que elas guardam no criado-mudo não é da minha conta e nem da sua."

“Eu...eu...não quero ter essa conversa com você! É muito nojento!”

A mãe conclui, antes de voltar para o que estava fazendo: 

“Você pode não querer falar, mas agora não tem como não saber: sua mãe tem um vibrador.”

O menino ergue a voz enquanto se afasta:

"Mãe, você é RI-DÍ-CU-LA!”

A mãe devolve no mesmo tom:

“VI-BRA-DOR! Serve para GO-ZAR. Agora, coloca direitinho de volta no lugar, tá bom, bebê? Não quero ter que ficar procurando."

"ARGH!"


Foto de Lachmanifesto

23.3.16

A escola na sala de jantar.



Ontem, só ontem, enquanto assistia ao filme Hannah Arendt, um pensamento me invadiu fino e fundo, como uma agulha de tricô e me virou o estômago e a mente: eu sei pouco, muito pouco ou quase nada sobre o nazismo.

Um dos maiores crimes da atualidade contra a humanidade, com 6 milhões de pessoas sistematicamente assassinadas, e o que sei sobre o processo que levou uma sociedade dita civilizada a cometer tamanha atrocidade? Nada.

O pensamento é talvez o mais rápido download que existe. Na mesma hora me conectei com a escravidão. Milhões de seres humanos arrancados de suas vidas e transportados como gado para servir de mercadoria. E o que sei realmente sobre esse fato, suas causas e consequências no mundo em que vivo? Praticamente só o que aprendi nas novelas das seis da Globo.

Foi difícil continuar prestando atenção no filme. Vendo Hannah dar aula, refletindo de maneira tão aprofundada com os alunos sobre a natureza humana, me ocorreu que estudei numa escola estadual durante a ditadura militar. Só 30 anos pós Segunda Guerra - ontem, em termos de história - e nunca um professor conversou conosco sobre esse conflito. Todos os esforços educacionais eram concentrados em nos fazer decorar capitais, datas e nomes de pessoas importantes. Eram aulas estéreis, emburrecedoras, a serviço dos generais.

A escravidão me foi ensinada como algo banal, coisa da vida, que aconteceu no passado e acabou graças a uma princesa branca, cheia de bondade. 

O holocausto indígena nas Américas, nunca ouvi falar. 

Nem de Getúlio Vargas, JK, Che Guevara, Mussolini. Pouco aprendi sobre a revolução francesa e menos ainda da revolução chinesa. Sei lá porque tem duas Coréias e mal entendo como podia ter um muro bem no meio de Berlim.

Sem minimizar de forma alguma o horror das torturas, hoje considero que um dos principais crimes da ditadura foi nos tornar rasos. Somos uma geração de humanos que sabe nada sobre a nossa própria natureza. Refletimos muito pouco sobre o que somos capazes, tanto para o bem como para o mal. Somos arrogantemente vazios e desprovidos de empatia.

A ditadura acabou, mas nossa escola até hoje não conseguiu se livrar desse modelo. Reconheço que há um movimento ainda incipiente de reflexão sobre causa e consequência das ações humanas e de desconstrução de heróis duvidosos, principalmente nas disciplinas da área de humanas. Mas, em geral, a maioria das escolas permanece congelada nos tempos da ditadura, onde toda e qualquer discussão de natureza “polêmica” é evitada. Como se o debate, num local de aprendizagem, fosse ruim! Classifica-se agora como "esquerdista" qualquer reflexão que se evita na sala de jantar e a escola acaba se tornando uma extensão das famílias e não um ambiente distinto de aprendizado. 

Assim continuamos a formar gente que não sabe o que dizer diante de um tema como a violência contra a mulher. Que se escandaliza quando escuta que o trabalhador doméstico deve ter direitos. Que é descendente de imigrante e é contra a imigração, como se seu antepassado tivesse aportado aqui de férias e resolvido ficar por conta do sol tropical. 

Qualquer guru chinfrim de autoajuda sabe que só conseguimos nos transformar quando olhamos para nossos próprios atos, refletimos e aprendemos com eles. Se um dos papéis da escola é transmitir às próximas gerações o conhecimento humano adquirido até aqui, como impedir a reflexão sobre os erros e acertos do nosso passado coletivo? 

Quando um determinado tema dói, irrita, choca, é sinal que o assunto ainda precisa ser debatido. E esse debate tem que ser feito na sala de aula. Os generais se foram. E a escola vai sair quando da ditadura?

20.3.16

“Professora, e seu eu te chamasse de vadia?”



A sala do sétimo ano estava dispersa e, no meio da confusão, um garoto chama um grupo de alunas de vadias. Elas ficam muito indignadas e procuram a autoridade presente: a professora.

A professora não dá bola. Negócio de criança, coisa da idade.

A indignação aumenta. As meninas ficam ainda mais exaltadas e alguns garotos resolvem sair em defesa delas: “Ô profa, o moleque chamou elas aqui de vadias! Você não vai falar nada?!”

A professora olha com cara de quem está cansada daquilo tudo e diz: “Depois vocês resolvem isso...lá fora no intervalo.”

É quando um dos meninos a interrompe dizendo: “Profa, depois?! E se fosse eu que te chamasse de vadia? Você ia querer resolver agora ou depois?”

O episódio ilustra bem como a construção da ética e do respeito nas relações ainda é uma realidade distante nas nossas salas de aula. E como a indignação do adulto é tratada com muito mais atenção do que a infantil ou juvenil.

Na visão de muitos educadores, um conflito só é digno de ser trabalhado quando envolve o educando e a autoridade. Conflitos entre os pares, isto é, entre crianças da mesma idade, é visto como coisa da idade. Mesmo quando trata-se de algo que, se não trabalhado, o educando pode levar para a vida, como nesse caso, o desrespeito às mulheres. 

Trabalhar o problema não é culpar o menino ou castigá-lo, com as costumeiras broncas e advertências que não servem pra nada. Um conflito bem elaborado é quando ele é visto como uma oportunidade valiosa de aprendizado, para todos os envolvidos. Tem coisa mais rica que flagrar um momento de desrespeito, quando o autor ainda tem idade para refletir sobre seu ato e se transformar? Tem algo mais precioso do que valorizar a indignação das vítimas e empoderá-las, para que procurem sim uma retratação? Tem momento mais imperdível do que apoiar os que saíram em defesa dos agredidos e valorizar essa postura tão rara de se ver no mundo adulto? Tem reação mais importante do que deixar claro para todos que estão na sala de aula que determinadas atitudes não são aceitáveis em hipótese alguma na vida em sociedade?

Mas a professora preferiu ignorar. E as meninas seguem vadias. E os garotos seguem vazios.

Termino narrando um episódio testemunhado na Espanha, onde, por lei obriga-se as escolas a trabalharem a moralidade e as questões de gênero. Houve um conflito durante a aula de matemática, curiosamente, a mesma disciplina da professora citada nesse texto. O professor interrompe a aula e discute com a sala o ocorrido. A visitante brasileira que observava o episódio dirige-se mais tarde ao educador e pergunta o motivo dele ter parado a aula só para resolver uma briga de criança. E o professor responde: “Sempre que temos um conflito, interrompemos a aula e conversamos. Porque aprender a se relacionar é mais importante do que aprender matemática.”


27.11.15

A Lista de Schindler escolar




Algumas escolas pedem que os alunos elaborem um “sociômetro” quando é necessário mesclar diferentes turmas.

A proposta, teoricamente, é muito simpática: cada criança elabora uma lista com 4 amigos. Essa lista serve para ajudar os educadores a montar as novas turmas, garantindo pelo menos um ou dois amigos por criança nas novas classes para que ninguém mude de turma sozinho.

Tudo muito lindo, certo? Só que não. O que era para ser apenas um guia, acabou se transformando numa tortura infantil. Crueldade pura.

Conversei com uma educadora que já estudou o sociômetro. Ela defende que a ferramenta seja usada, desde que não se revele aos estudantes o objetivo: “Pessoal, vamos falar sobre a amizade...sobre a importância dos amigos na nossa vida...blá, blá, blá...agora vamos escrever o nome de amigos queridos....”. E assim, as crianças elaboram as listas com sinceridade, sem saber o real propósito da atividade.

Sacanagem com as crianças? Não. A educadora explica que um dos motivos de não se abrir o jogo é evitar que as crianças manipulem o resultado. Na escola do meu filho, por exemplo, abriram logo de cara: “vamos garantir pelo menos UM amigo na nova sala”. O que os alunos fizeram? Dividiram-se de quatro em quatro e escolheram-se entre si. A estratégia inteligente foi garantir que os quatro fiquem juntos no novo ano. A amizade importa? Sim. Mas o mais importante é o combinado entre eles. Sabemos que, nessa idade, a pressão do grupo é mais forte que a vontade individual.

Mas existem outras implicações: uma delas é que, nessa idade, amizades podem ser sazonais. O melhor amigo desse mês pode não ser o do mês seguinte. A amiga que eu morro se não estudar junto, em breve semanas pode virar a insuportável que nunca mais serei amiga na minha vida. Ao não levar este fato em consideração, corre-se o risco de tomar uma decisão baseada em um cenário momentâneo.

Mas, para mim, um aspecto ruim do "sociômetro módulo verdade absoluta" é o abuso moral. É um estresse que nenhuma criança precisaria passar. Ter que escolher quem vai e quem fica é forçá-los a excluir amigos. Que podem não ser os favoritos da vez, mas são “parças”, gente boa, que eles também gostariam de continuar estudando juntos.

Pior se pensarmos do ponto de vista dos não inclusos na lista. Se você já viveu a experiência de não ser escolhido para o time, multiplique por mil e imagine o que é não ser escolhido pelos amigos para fazer parte da turma do ano que vem. Conheço um garoto de 12 anos que amanheceu doente, depois de ficar sabendo que nenhum dos amigos que ele escolheu o haviam colocado na lista.

A coisa se torna ainda mais grave, quando sabemos que o sociômetro despenca sobre os alunos no final do ano. E a "revelação" da nova turma só será feita na volta às aulas. Caberá a nós, pais, lidarmos com a ansiedade, os zap zaps, os medos, e as incertezas durante todo o verão. Valeu, escola!

E quando pensamos em colégios menores, com duas ou três turmas por série usando o método, fico aina mais confusa. Me pergunto o que estes educadores fizeram o ano todo que não sabem quem é amigo de quem e quais alunos precisam ser separados. Precisa mesmo fazer as crianças passarem por isso? Se fossem sete, dez turmas, ainda vá lá. Talvez fosse necessário mesmo outra ferramenta além da observação. Mas com duas turmas, para que tanta invencionice?

Pior ainda se a escola é daquelas com proposta humanizada. Aderir a esse tipo de estratégia é abrir mão da colaboração e do companheirismo, que são valores que nos tornam mais humanos. É ensinar para as crianças que amigos são descartáveis. Que podemos eliminá-los quando alguém nos ordena. É ensinar a obediência e não a autonomia.

Se a escola optou por mesclar as turmas, que ao menos assuma a parte suja do negócio e tire das crianças o peso de excluir os colegas.

Encerro este texto pensando no menino com a garganta inflamada. Não sei se ajuda, amiguinho, mas o ar me faltou e minha garganta também inflamou pensando em você. Saiba que a culpa não é dos seus amigos. Somos nós, adultos, que com a melhor das intenções, complicamos tudo.

Nos desculpe.




13.11.15

Pré-esposa



Mozão,

Eu sei que você até hoje não entende porque fico tão brava quando você dá uma “pré” nas tarefas que dividimos na casa.

Imagino que realmente seja difícil lidar com meus surtos toda vez que você encara uma pia cheia de louça suja e, vinte minutos depois afasta-se, deixando-a ainda repleta de louça para lavar: “Dei uma pré-lavada”. “COMO ASSIM PRÉ-LAVADA?!”. “Ué, dei uma enxaguada pra depois ficar mais fácil.” “FÁCIL PRA QUEM? ”. Você engasga e a louça começa a voar.

Ou quando você tira a roupa lavada da máquina e ao invés de pendurá-la, faz uma pilha de roupa molhada sobre o varal de chão, no inovador módulo pré-pendurada.

Espano também com as pré-varridas. As varridinhas onde passa o padre, “um quebra galho até alguém dar uma varrida mais profissa.”

Mas reconheço que meus pitis pré e pós-arrumação fazem um mal danado ao nosso casamento. Você fica magoado, achando que eu não reconheço sua participação. Eu fico irada, me sentindo uma otária.

Então, para acabarmos com o estresse resolvi aderir à prática. A partir de agora, serei uma pré-esposa.

Farei uma pré-janta. Abra a geladeira e nos tapuérs você encontrará ingredientes pré-preparados, no jeitinho para você levar para o fogão. Há também a opção de você aderir ao crudivorismo. Nesse caso, encare minha contribuição como ciclo completo.

Você também vai adorar a pré-lavagem de roupas. Na área de serviço, você encontrará uma bacia com sua roupa suja de molho, assim fica bem facinho pra você lavá-las. Só recomendo não demorar muito. Ouvi falar que meias, cuecas e calções de futebol muito tempo de molho dão origem a novos seres vivos. A NASA tem até estudado o fenômeno para usá-lo no repovoamento de Marte.

Mas, o que você mais vai gostar é a aplicação do seu método “pré” no sexo. Será lindo. Contribuirei arduamente para deixar nosso amigão no ponto exato para que você dê um jeito nele. Sozinho.

Te amo cada vez mais, querido. E só posso agradecer ter introduzido o módulo pré na minha vida. Me sinto mais livre. Tão livre que neste final de semana vou pra praia com umas amigas. Numa pré-viagem para o cruzeiro que farei com as meninas no carnaval.

Mil beijos!

18.5.15

Tijolo nos dentes





Tijolo nos dentes

O menino se aproxima: “Mãe, você sabia que o Mc Pedrinho, Mc Brinquedo e o Mc Pikachu estão sendo processados?”

A mãe franze a testa. Não tem a menor ideia de quem são Pedro, Brinquedo e Pikachu. Mas cumpre à risca seu papel de mãe interessada. “Jura?! E por quê?”

“Porque eles tem doze anos e trabalham. Dão show às três horas da madrugada, acredita? E cantam umas músicas muito nada a ver.”

“Como assim nada a ver?”

“Ah, mãe…coisa de sexo…posso cantar? Você não me dá bronca?”

“Pode.”

O menino respira fundo e canta meio titubeante, sem fazer contato visual, “Roça, roça o peru nela que ela gosta…”

“Que horror! E onde você escutou isso?”

“Mãe, todo mundo escuta. O Fulano, meu amigo, canta o tempo todo. Na frente da mãe dele e até da professora!”

A mãe arregala os olhos: “Da professora?!”

“É, ela deu a maior bronca. Mas é ele, né, mãe. Eu não faço nem morto, porque sei que você me quebra!”

A mãe franze a testa, de novo. Ia logo perguntar “Eu te quebro?”, mas preferiu se calar por um instante. Achou intrigante. Nunca deu nem uma “simples” palmada num filho e não acredita na educação que precisa de violência para acontecer. É totalmente a favor da Lei da Palmada, que proíbe que os pais batam nos filhos. Então, de onde o menino tirou que ela iria quebrá-lo?

Lembrou-se do dia que a faxineira chegou super indignada na empresa em que ambas trabalham. Ela tinha presenciado o filho de uma cliente ser extremamente mal educado com a mãe e não se conformava com a grosseria do menino. “Filho meu nunca fala assim comigo porque sabe que leva uma tijolada nos dentes.”

Aquela frase ficou gravada na memória. Sabia que a mulher falava no figurativo, mas ela lhe ensinou que havia um limite claramente traçado com tijolo o qual os filhos dela sabiam que não podiam ultrapassar. Invejou-a. No meio onde ela circula, de pais que refletem demais, a ponto de muitas vezes terem dúvidas de como agir, aquela frase lhe fez pensar na delícia de criar filhos sem pisar em ovos. Nunca quis que os filhos a temessem, mas pensando bem, um medinho, um “prestenção, moleque” até que não seria nada mal. 

O hábito, contudo, foi mais forte e ela optou pela técnica de orientar levando o filho a refletir:

“Filho, cantem essas músicas entre vocês, quando estiverem sozinhos. Na frente da professora é uma bruta falta de respeito. E na frente de meninas então, nem pensar. É muito ofensivo.”

“Ah, mãe, outro dia o Fulano cantou e elas deram risada.”

“Deram risada porque ainda não pensaram no que isso significa. Nenhum homem pode encostar o pinto numa mulher sem ela querer. É mentira que as mulheres gostam. Já imaginou, no ônibus, na rua, um cara chegando e encostando o pinto em mim ou nas suas amigas. É horrível! Só se a mulher quiser e deixar. Não canta essas músicas perto de mulher nenhuma, porque é supergrosseiro. E não tem graça.”

O menino bufa, “Eu não canto, já disse. Eu sei que você me quebra.”

A mãe, respirou fundo e ia retomar a pregação. Mas pensou melhor e disse:

“Exato. Te quebro. Dou-lhe uma tijolada nos dentes. Fica esperto”.

O menino saiu dando risada. Ao longe, a mãe ainda o ouviu cantarolar uma canção. Sem roça roça ou peru.

12.3.15

Linda





Ela era feia. 

Tinha um rosto judiado e pernas curtas e finas que pareciam mal encaixadas sob a barriga larga. O sorriso exibia dentes escurecidos, talvez por café ou cigarro. O cabelo preso atrás mostrava a raiz pedindo tinta. A pele exibia vincos do tempo e da vida.

Conversamos rapidamente no intervalo de um curso de pães caseiros.

Me contou que fazia o curso para começar a vender pães e aumentar a renda. Disse animada que fazia de tudo para viver. Artesanato com bisqui, lembrancinha para batizados e casamentos, arte em feltro, bijuteria e até unha e cabelo no pequeno salão de beleza montado na garagem de casa. Contou que também costurava roupinhas de boneca e nessa hora seus olhos brilharam…adorava recuperar as bonecas que as amigas e vizinhas lhe traziam. Dava banho, passava condicionador no cabelo, maquiava, punha roupa nova, sapatinho, tirava manchas de caneta. Sua última restauração foi uma Dorminhoca linda, que agora fica em cima de sua cama e ninguém pode mexer. Nem a neta. E essa é a única coisa que a vó proíbe a neta de fazer.

Disse que não tinha medo de trabalhar e que nunca recusou uma encomenda. “O que me pedem pra fazer, eu faço. Se não sei, aprendo, viro noite, mas entrego”.

Para dar conta de tudo, explicou que seu dia começava cedo e acabava tarde, porque ainda cuidava do pai idoso.

De repente, ela abriu um sorrisão: “Minha única pausa é para entrar no Face para namorar.”

Ela explicou que tinha muitos namorados, todos estrangeiros, da Índia, da Coreia, da Rússia, da Irlanda. Eles se falavam sempre por mensagens. 

Perguntei sobre a diferença de língua e ela foi categórica: “Aviso logo de cara que ‘no ispique inglis…ispique português’. Se quiserem falar comigo eles tem que se virar. Então eles usam o Google Tradutor e copiam e colam tudo…menina, é um rolo, mas nenhum até hoje desistiu.” E o sorriso virou uma risada.

Disse que já teve namorado da gringa que quis vir buscá-la, que tinha barco, casa na praia, mas ela foi enfática: “Nem pensar!” Explicou que queria namorar só pelo Face. Seus olhos se encheram de lágrimas para dizer que já sofreu muito e que não quer mais homem real na sua vida.

Contou que venceu um câncer, que lhe deixou como sequela uma hérnia enorme na barriga, que nenhum médico quer operar. E que esteve sozinha durante todo o tratamento, porque o marido a abandonou e a irmã achava que ela estava de frescura para chamar atenção.

Nessa hora as lágrimas escorreram “Menina, você acha que alguém faz frescura com uma doença dessas?!” 

Continuou dizendo que isso não a derrotou. Encarou a luta, ia de ônibus fazer quimio, buscava remédio no postinho e mesmo com muito enjoo não faltava aos retornos. Hoje estava ali, cheia de energia e de namorados, desejando para todos apenas coisas boas. “Eu entro no Face para alegrar as pessoas. Coloco uma flor, uma frase que acho bonita, um desenho, um coração. Esse mundo tem coisa ruim demais, então, quero distribuir só bons pensamentos. E as pessoas gostam. Gente que eu nem conheço me escreve agradecendo e conta que estava tendo um dia péssimo e depois de ver o que postei, se alegrou.”

Seguiu me contando episódios engraçados, como a fila que fazia para bater papo quando ela se conectava. E da confusão com o tanto de janelas de chat abertas. Às vezes confundia as repostas e a conversa de um ia parar na janela do outro. 

Demos muita risada e logo o professor nos chamou para ver os pães que saiam do forno. 

O curso acabou e nunca mais a vi. Esqueci seu nome e dela tenho apenas uma lembrança.

Ela era linda.


9.2.15

Piolhinha






Piolhinha


A classe dos pequenos padecia com uma infestação de piolhos. 

Todos os esforços que estavam sendo feitos para resolver o problema pareciam ser em vão. A escola mandava bilhete, os pais tratavam, os piolhentos eram afastados alguns dias e devolvidos sem sequer uma lêndea, mas logo os bichinhos voltavam a atacar sem piedade o couro cabeludo da meninadinha.

A mãe não aguentava mais. Sua filha parecia que tinha néctar para atrair piolho. Era mandar pra escola que voltava coçando a cabeça. 

Resolve tomar uma atitude. Ela era muito boa nisso.

Encontra a professora na porta da sala e, num momento privado, dispara:

- Escuta, não é possível isso que está acontecendo! Com certeza tem um foco, alguma criança que a mãe não está tratando. Quem é?

A professora olha para um lado, olha pro outro e solta num cochicho: 

- A Fulaninha. Você sabe, a mãe dela é supernatural. Tipo super mesmo…não gosta de produtos químicos e se recusa a passar qualquer coisa na cabeça da menina. Dá pena de ver o tanto que ela se coça.

- Pô, mas nem um vinagre com pente fino?! Quer algo mais natureba que isso?

- Nada. Já tentamos de tudo. Ela se recusa, diz que o corpo da menina vai se equilibrar e expulsar o piolho sozinho. O pior é que a pobrezinha tem um cabelo enorme! Impossível não encostar nas outras crianças. A gente até prende, faz um coque, mas não adianta.  Estamos evitando suspendê-la, mas não sabemos mais o que fazer.

Depois de prometer que a conversa ficará entre elas, a mãe se despede e sai matutando um plano. Ela também era muito boa em ter ideias.

Na mesma tarde, liga pra mãe paz e amor e convida a pequena Gal Costa para ir brincar em casa depois da escola. 

Tudo arranjado, ela pega as meninas na saída e, no caminho, dá uma paradinha na farmácia.

Chegando em casa, as meninas brincam um pouco e depois de um lanchinho, a mãe sugere:

- Vocês não querem brincar na banheira? Tenho giz de cera de azulejo e esse canudo de fazer megabolhas de sabão!

As meninas topam e enquanto brincam, a mãe vai espumando o cabelo das duas, delicadamente, com shampoo de piolho. Depois “desembaraça” com pente fino, fazendo esculturas engraçadas e penteados de princesa.

Repete a brincadeira na semana seguinte e na outra, só por precaução.

A infestação de piolhos foi milagrosamente controlada e, para todos os efeitos, o corpo da menina se equilibrou e expulsou sozinho o inimigo. 

Só que não.