13.9.14

Barrado no shopping





Barrado no shopping

Ontem, meu filho foi barrado na entrada de pedestres do Shopping Vale Sul, em São José dos Campos.

Ele estava sozinho. Assim mesmo, o vigia colocou as mãos em seus ombros e disse que ele não ia entrar porque ali não podia “rolezinho”.

Meu filho, indignado, respondeu que aquele era um espaço público/privado e que ele tinha direito de ir e vir. Pediu então que o vigia chamasse o jurídico do Shopping para resolver a questão.

Na mesma hora, o guarda pediu desculpas e o liberou.

E eu, pra variar, fiquei com a pulga.

Meu filho foi barrado porque é adolescente, andava a pé e usava touca. 

Depois foi liberado, certamente, porque o vigia identificou no modo dele falar que ele não pertencia à categoria “moleque da perifa”.

Me pergunto o que teria acontecido se ao invés de cobrar seus direitos ele tivesse dito: “Qual foi, guardinha?!”, ou “Libera ae, tiozinho!”. 

Gestores do Vale Sul, por favor me respondam: onde, na Constituição Brasileira, está escrito que o direito de ir e vir vale somente para aqueles que se comportem e ajam como garotos de condomínio.

Onde está escrito que vocês podem barrar a entrada de meninos e meninas que andam a pé e tenham cara de pobre, seja lá quais critérios o sujeito precise preencher para que o guardinha o identifique como tal.

Ontem, se por acaso eu fosse mãe de um garoto menos instruído e articulado, teria ido dormir com o fato do meu filho não ter podido passear no shopping. E dele ter tido seu direito mais básico violado que é o fato sermos todos somos iguais perante a Lei.

O Shopping Vale Sul recentemente doou milhões para a Primeira Igreja Batista de São José dos Campos fundar uma escola para ensinar crianças e jovens dentro dos valores Cristãos.

Então, se me permitem, gostaria de lembrá-los que o mais fundamental valor cristão é amar ao próximo como a ti mesmo. 

Os senhores já se perguntaram o que Jesus diria de vocês segregarem meninos e meninas pelo simples fato deles andarem a pé e usarem touca?

E o vinde a mim as criancinhas? Já se perguntaram qual o efeito na cabeça desses adolescentes de terem seus direitos mais básicos tão rotineiramente violados? De serem tratados diariamente como sub-cidadãos? De aprenderem desde pequenos que vivem numa sociedade que não os quer? 

É muito lindo fazer caridade assinando cheque. Fica bem na foto e nos releases que vão para os jornais. 

Mas a verdadeira caridade é AGIR dentro dos preceitos cristãos. E essa eu ainda estou para ver quem pratique.

Ontem meu filho foi barrado no Vale Sul. E quando viram que ele não era um “qualquer” foi liberado.

Eu, sinceramente, ainda não sei qual das duas atitudes foi a pior.



26.8.14

Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.





Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.


Queridos educadores,

Vocês vivem nos dizendo que a relação escola família é fundamental para o aprendizado dos nossos filhos. Eu também acredito nisso. Por isso lhes peço, na próxima reunião de Pais e Mestres, não me convidem.

Prefiro não mais comparecer, pois todas as vezes que vou a esses encontros, saio achando que vocês não fazem questão alguma de se relacionar comigo.

Não me levem a mal, mas acho que a reunião de pais e mestres é um momento precioso. Compareço a todas, buscando entender melhor a proposta educacional da escola, os projetos que vocês estão desenvolvendo, a avaliação dos caminhos trilhados e saber dos planos futuros. Gosto também de escutar os desafios, as dificuldades que o grupo enfrentou, os conflitos, ouvir relatos de como os nossos filhos estão aprendendo a viver no coletivo, com todas as suas dores e delícias.

É muito legal quando a escola usa este tempo que passamos juntos para se aproximar da gente. 

Mas nossas reuniões não tem sido assim. Na verdade, tenho saído delas me perguntando o que realmente fomos fazer ali. 

Porque, vejam bem, faz sentido nos tirar de casa numa noite de semana para ficarmos sentados escutando recados que poderiam ser eficientemente transmitidos por bilhete ou email? Eu preciso ir até aí para saber que tenho que levar meu filho no horário, que ele tem que ir de uniforme e que quinta-feira é o dia da fruta? E que pesem os argumentos que alguns pais não leem bilhetes - esse momento “recadão” tem que tomar tanto tempo da reunião?

Depois vem o momento “broncão”. E grande parte da reunião é desperdiçada com broncas aos pais “coniventes” com atrasos, com celular em sala, com os filhos adolescentes que não nos entregam os bilhetes (!). 

E assim, nosso encontro se aproxima do fim. E termina sem sermos informados de quase nada da tal vida escolar que vocês querem tanto que acompanhemos.

Saio sem saber que projetos estão desenvolvendo, e assim, não consigo assistir com meu filho aquele filme que tinha tudo a ver com o tema. Não sei como está sendo o aprendizado da matemática, então acho estranho ele ainda não fazer conta armada. Desconheço que estão estudando o sistema solar e perco a oportunidade de levá-lo àquela exposição tão bacana sobre Galileu.

Entendam, professores, que vejo minha participação como algo que vai muito além de mera cumpridora das determinações da escola. Esse pai submisso que escuta o monólogo dessa instituição, anota certinho no papel e obriga o filho a devolver o livro da biblioteca no prazo, é o pai que facilita a vida de vocês. Mas não é o pai que vai fazer a diferença na vida escolar do seu aluno. 

O familiar que faz a diferença é aquele que se entusiasma com o aprendizado. Que acha muito legal o foguete de garrafa pet da aula de física e pede pra ver uma demonstração no quintal. Que dá risada de uma crônica do livro da Ciranda de Leitura. Que discute a desigualdade e as injustiças, quando o filho lê os Sertões. Que lê uma redação, sem ficar chocado que está escrito trajetória com G e sim, encantado pelo filho estar usando uma palavra difícil e ampliando seu vocabulário. 

É o familiar que compra a proposta da escola e apoia os professores, não por respeito à “autoridade escolar” e sim, porque conhece, valoriza e confia no trabalho de vocês.

Mas tudo isso, professor, só é possível se houver comunicação. Diálogo. Vocês precisam compartilhar conosco as propostas, as metas de aprendizagem, o andamento das atividades, as intervenções nos conflitos, os sucessos e as dificuldades coletivas que estão encontrando. 

Precisam nos ensinar também. Muitas coisas mudaram na didática e um tempo da reunião poderia ser usado para nos mostrar como são as novas práticas. Podem até passar um vídeo que ilustre o que estão dizendo. Desde que seja um complemento ao assunto, um exemplo de como os alunos elaboram hipóteses matemáticas ou de como trabalham em grupo, se esse é o assunto que estamos conversando. Nada de vídeos de 20 minutos de crianças sorridentes e saltitantes, porque isso é encher linguiça e não contribui em nada para a minha formação de mãe participativa.

Enquanto essa reunião não acontece, não me convide mais. Prefiro não ir e seguir na doce ilusão que a escola quer muito se relacionar comigo mas, infelizmente, não me sobra tempo.

Melhor assim.

13.8.14

Sherekas na praia.




Sherekas na praia.

Três mães tomam caipirinha na areia enquanto os filhos estão no mar pegando jacaré. 

- Gente, a Fulana veio me pedir um conselho. O Beltraninho quer ver mulher pelada e pediu que ela compre uma Playboy pra ele. Ela não sabe se compra ou não.

- Quantos anos o Beltraninho está?

- Dez.

- E o que você disse pra ela?

- Disse pra comprar logo a revista pro menino, oras!

- Ah, me desculpe, mas eu discordo.

- Como assim?

- Flor, deixa eu te dizer, mãe é mãe. Tem um código. E nesse código está escrito que não fornecemos álcool, cigarro, maconha e mulher pelada.

- É verdade. Ele que se vire. Dez anos já consegue espiar num buraco de fechadura, roubar revista da portaria do prédio…

- ...Google, flor. Vai dizer que ele ainda não aprendeu a digitar “mulher pelada” no Google?

(Risos)

- Aliás, outro dia uma amiga minha foi fazer uma busca no Google, botou a letra "S" e o Google completou "Shereka". (Risos) Foi o filho dela de 8 anos que fez a busca anterior.

- Shereka com “S”? Vai ver ele pesquisava o Shrek do filme.

- Ah, tá…mas depois ela botou "M" e apareceu “Mulher pelada beijando”.

(Risos)

- Gente, mas qual o problema dela comprar uma Playboy pro menino?

- O problema, amora, é bem simples: QUE TIPO DE HOMEM ESTAMOS CRIANDO QUE QUANDO QUEREM VER UMA XOTA CHAMAM A MÃE?

- Ai…vendo por este ângulo vocês tem razão.

- Pelo amor, lógico que estamos! E outra, eles não são separados? Se o menino der uma busca rápida na casa do pai, vai achar revista de sacanagem. 

- Flor, nem todo ex-marido é igual ao seu...

(Risos)

- Vocês me convenceram. Vou falar com ela.

- Isso, mesmo. Vamos batalhar pra melhorar o produto que estamos colocando no mercado. Tem porcaria demais na praça. 

- É isso aí. Quer almoço quentinho, eu ensino a usar o microondas. Mas onde tem mulher pelada...se vira. Sou mãe à moda antiga.



25.7.14

A observadora de mísseis.




A observadora de mísseis.

Conheci Dalal em Tel Aviv. Não sei bem sua idade. Mas é idosa e caminha com uma certa dificuldade, arrastando suas pantufas calçadas sobre meias para varizes, que vão até o joelho.

Dalal não se cobre, porque é árabe cristã. Nasceu e cresceu na região e foi testemunha de todas as suas transformações, desde a ocupação inglesa na Palestina até a formação do Estado de Israel. 

Conta que seus olhos já viram muita coisa. Guerras, revoltas, atentados, terrorista sendo arrastado vivo em motocicleta, terras tomadas e famílias apartadas. Viu a chegada dos judeus, com seus hábitos estranhos de gente que vem de terras ainda mais estranhas. Viu chegarem os etíopes e suas mulheres de rosto fino e tatuado. Viu nascer árvore onde era deserto e cidades em locais onde nem as ovelhas queriam pastar.

Se um dia os judeus fossem embora, Dalal diz que iria com eles. Diante da minha surpresa ela explica que prefere a vida daquele jeito. Diz que antes era muito difícil, muita bagunça e que em sessenta anos eles fizeram um país onde se pode andar na rua, com água, eletricidade, seguro social...Dalal olha longe e dá de ombros.

Não sei se ela repetiria essa afirmação para os da sua comunidade. Mas, definitivamente, sua confiança nos israelenses não se reflete na comida. Dalal não come nada industrializado e cozinha tudo do zero, de preferência, só com ingredientes árabes. Ela curte azeitona, faz iogurte, assa berinjelas para o babaganush, depois rega com azeite de oliva palestino que compra em garrafas pet de um mercador do bairro. Só bebe café “arabic” aromatizado com grãos de cardamomo e que nunca é coado.

Em algumas ocasiões, Dalal tocava nossa campainha e nos presenteava com um pratinho com quatro delicados charutinhos de folha de uva, um pires de picles de nabo e couve flor. Noutras, era um potinho com três pequenas esfihas e uma deliciosa porção de molho de tahine perfumado com limão siciliano. 

Quando a perna doía muito, pedia que minha irmã lhe fizesse uma massagem, enquanto isso lhe ensinava truques de culinária, como colocar um pouco creme de leite para fermentar junto com o iogurte para torná-lo mais cremoso, ou que temperos secos deviam ser guardados no freezer para manter o aroma e o sabor. Depois nos servia uma porção de kibes, que ela pronuncia kube.

Aos poucos, fui descobrindo que Dalal perdeu um filho de trinta anos, de câncer de pulmão. O moço nunca havia fumado, mas o pai dele sim. O marido de Dalal sempre fumou muito, até dentro de casa, e manteve o vício mesmo depois da morte do rapaz. O esposo faleceu há um ano e Dalal hoje vive sozinha. 

Fiquei sabendo, recentemente, que quando soam os alarmes antimíssel e a cidade toda corre para os abrigos, Dalal vai pra varanda. E fica olhando para o céu querendo ver onde o míssel vai cair.

A cena me faz sorrir. Penso que no fundo, Dalal quer que o mundo exploda. Talvez por ser a única coisa que seu olhar ainda não viu.


6.6.14

Avisado!



Avisado!

- Moça, quero meu ingresso de volta.

- O que houve senhor?

- Essa porra de filme é uma viadagem só. 

- Senhor, posso ver seu ingresso?...Desculpe, mas aqui está carimbado que o senhor foi avisado do conteúdo homossexual do filme.

- Sim, mas eu achei que o Capitão Nascimento ia entrar no barraco e encher de tapa esses viadinhos filha da puta.

- Não entendi, senhor…

- Porra, quando eu ia imaginar que o próprio Capitão Nascimento é um tamanho baitola?

- Senhor, esse filme não é do Capitão Nascimento.

- Como não? Olha o cartaz, minha filha!

- Senhor, aquele é o Wagner Moura. O ator que fez o Tropa de Elite. Mas esse é outro filme, outro diretor, outra história...

- E você me avisou? Cadê o aviso…”CUIDADO, NÃO É TROPA DE ELITE”?

- Senhor…eu não sei o que dizer…

- Óbvio que não sabe. Porque eu estou certo. Me devolve meu dinheiro e encerramos esse assunto. Eu não vou pagar pra ver bichinha se pegando. 

- Clayson, QAP? To com um problema aqui. Cliente avisado querendo grana de volta. Praia do Futuro. Qual o procedimento? Sei…ok…hum, hum…tá bom. 

- Senhor, o gerente disse não. Nem pensar. Necas de catibiriba. Mandou o senhor reclamar com o Bolsonaro ou com o Feliciano. Até com o Papa, se quiser. Apesar que com esse Papa aí duvido que o senhor consiga alguma coisa. 

- Ele disse isso?! Então, fala para esse gerentinho de merda que o Brasil tá essa baixaria por causa de gente como ele. Que palhaçada! Você vai ver um filme do Chuck Norris, você vai sossegado porque nunca vai ter barba na nuca de outro homem. Um filme do Chuarzenegui é só tiro. Vandaime, porrada. Só aqui, nessa bosta de país, nosso único herói morde o travesseiro. Te contar, viu. É uma avacalhação, estão acabando com a família. Por isso tem tanta bicha por aí. Esse país não tem jeito. Vocês acabam de perder um cliente. Um não, dois. Minha patroa também não bota mais o pé aqui. Patroa, porque sou macho pra carai.

- Tem certeza, senhor? 

- De quê? Que sou macho? Você é abusada, heim! Não dou na sua cara porque você é mulher.

- Tem certeza que não volta mais? Semana que vem tem filme novo do Vin Diesel. Daqueles que espirra sangue. Filme de macho.

- Vin Diesel?…Nã…nem pensar. Nunca mais volto nesse cinema. 

- Bom, depois não diga que não avisei.

- O que você disse?

- Nada não, senhor. Vai com Deus...próximo!


30.5.14

A escola humanizada precisa existir.





A escola humanizada precisa existir.

Agora que a escola com tecnologia começa a existir, fica a pergunta:

Quando os prefeitos e governadores vão investir na escola humanizada?

Uma escola onde o respeito mútuo é a base das relações.

Onde os alunos se sintam acolhidos, valorizados e queridos. E os mais vulneráveis se sintam seguros.

Uma escola que defenda valores humanos, não apenas nos murais, mas no dia-a-dia, exemplificando na prática e na postura dos educadores, o que é ou não aceitável numa sociedade verdadeiramente humana e justa.

Quando teremos escolas com prédios felizes? Espaços alegres e aconchegantes, como devem ser os locais onde se promove o saber. Locais tão queridos que as comunidades se apropriam, sentem-se parte e zelam por eles. E não lugares sombrios, com aparência de delegacias cinzentas, cheias de grades e cadeados, de onde a única coisa que se quer é fugir.

Então, senhores governantes, quando virá a escola feita para promover o ser humano e não apenas o ser português, o ser matemática, o ser geografia?

A escola que sabe que conversar é parte do aprendizado e que uma sala de aula sempre quietinha é uma sala apática e submissa.

A escola aberta aos conflitos, pois eles fazem parte da vida e só se aprende a lidar com eles, vivendo-os na prática.

A escola que encara os problemas de frente e identifica-os como seus, sem procurar transmiti-los para fora dos muros ou para as famílias.

Que reconhece a sociedade onde está inserida e convive com ela, sem lavar as mãos diante dos desafios e sim, aceitando-os e atuando para transformá-los.

A escola que só faz regras justas e necessárias, sem proibições autoritárias cujo único objetivo é controlar e não educar.

Quando teremos uma escola que vê os alunos como educandos, e não como problemas?

Que ensina a resolução não violenta dos conflitos. E, assim, promove a cultura da paz.

Que ensina a conviver com a diferença. 

A escutar.

A debater.

A olhar para o outro.

A praticar a cidadania.

A escola que se importa e, por se importar, promove a verdadeira transformação na vida das pessoas e na nossa sociedade.

E aí, prefeitos e governadores…quando?



28.5.14

A escola interativa começa a existir



A escola interativa começa a existir.

Uma das mais ousadas experiências em educação pública está pra acontecer em São José dos Campos. A cidade, polo aeroespacial, agora também vai levar tecnologia para todas as escolas municipais. É o projeto Escola Interativa, que já começou dando um notebook para todos os professores e instalando datashow, lousas inteligentes e banda larga de 30 mega, nas 600 salas de aula do ensino fundamental. Agora, a partir do segundo semestre, o projeto se amplia com a doação de um tablet por aluno do 6º ao 9º ano e, a partir do ano que vem, do 1º ao 5º.

O que mais me chamou a atenção neste projeto é que, apesar de sua grandiosidade, ele foi concebido para ser apenas mais uma ferramenta para o professor, que ocupa lugar central no plano. O sistema lhe dá total autonomia de uso, permitindo que ele escolha como usar as ferramentas e quando. Também permite a gestão total dos tablets dos alunos. Por exemplo, ele pode bloqueá-los quando quer a galerinha focada em algo específico, liberar apenas alguns, liberar todos, montar grupos na sala com atividades diversificadas. Pode também monitorar o que os alunos estão trabalhando em suas telinhas, projetando-as na lousa inteligente e compartilhando diferentes modos de resolução e achados individuais.

Não há conteúdo ou software obrigatório e o professor tem autonomia para montar sua aula. Soube de uma professora de geografia que, a partir do vídeo “Stand by Me”, tocado por músicos de rua em diferentes partes do mundo, levou os alunos a um tour virtual por todas as cidades que aparecem no clipe, através do Google Earth, observando localização, topografia, modelos dos carros, estilo de casas, etnia, arquitetura, etc., ampliando os horizontes dos alunos para muito além do livro didático e das paredes da sala.

Seria ingênuo achar que o uso da tecnologia é a solução dos problemas do ensino público e privado. Não é e está longe de ser. Mas, é inegável que inserir de forma planejada uma ferramenta que hoje é presente em todo o planeta - menos nas escolas - aproximará mais as salas de aula da realidade dos alunos. Prender a atenção de uma turminha que nasceu megabitizada tem sido cada vez mais difícil. Culpam-se todos, os pais que não educam, o excesso de açúcar, o celular, mas o fato é que aumenta a cada dia a distância entre o que se aprende na escola com o que se vê no mundo e, ingênuo, é querer que a meninada fique 5 horas olhando para uma lousa verde, pelo simples “amor ao estudo”.

São José está dando um primeiro passo. Não será um passo fácil. A proposta exige o engajamento e a conscientização das famílias, não só para os cuidados com o equipamento, mas também para o monitoramento do uso dos tablets em casa. Para isso, a prefeitura montou um ônibus equipado com uma réplica da sala de aula multimeio, que visitará as comunidades apresentando o projeto aos pais. Há também bloqueio de pornografia e um app que permite aos pais gerenciar o equipamento.

Mas o pulo do gato será capacitar o professor. Novas ferramentas exigem novas práticas. Por exemplo, um professor acostumado em encher o quadro com textos para os alunos copiarem, se continuar fazendo o mesmo, vai continuar tendo alunos irriquietos, distraídos e provavelmente indisciplinados. E não há tecnologia do mundo que resolva. Mesmo porque, o sistema salva as aulas e compartilha com os tablets, portanto se a cópia já não fazia sentido na época da caneta e do caderno, imagina agora.

Acredito que leve um tempo para que o professor se familiarize com o equipamento, mas acho que as respostas por parte deles serão rápidas. O saber do professor é imenso e esse saber está sendo não apenas respeitado, mas valorizado. Ter disponível em sala ferramentas que permitam que ele enriqueça sua prática com os recursos do mundo digital, lhe abrirá um universo de novas oportunidades. E, o mais curioso, é que os estudantes terão um conhecimento a mais que os mestres. Eles já vem de casa capacitados para usar o equipamento e saberão, sem dúvida alguma, operá-lo com mais facilidade que os adultos. Portanto, o professor que for aberto para a colaboração dos alunos, terá mais um fator de aproximação a seu favor, colocando todos como mestres e aprendizes, numa linha horizontal de troca de saberes.

Há dois pontos que incomodam. As escolas estaduais não fazem parte do programa, criando na cidade os “com” e “sem tecnologia”. Pergunto também o que será desses meninos e meninas ao terminar o fundamental neste novo universo e ingressar no ensino médio "quadro negro e giz" das escolas públicas e de muitas particulares. Será um “de volta pro passado” caótico e cruel.

Mas tirando a eterna falta de sincronia entre governos estaduais e municipais, estou empolgada e quero acompanhar de perto o que vai acontecer. Se vai dar certo? Não sabemos, mas como disse nosso vizinho, Presidente Mujica, como evoluir sem experimentar? São José dos Campos está liderando uma experiência inovadora em educação, principalmente, por acreditar na autonomia e na capacidade dos educadores e dos alunos. Também por usar dinheiro público para a construção de  saber.

Só isso já é algo lindo.


Grafite de Jakub Halun



12.5.14

Músico de rua.




Músico de rua.


É do tipo de mãe que procura apoiar o filho em todas as suas iniciativas. 

Aos cinco ou seis anos, o menino inventou de tocar um instrumento na rua, como os músicos que via nas idas ao centro da cidade. E levaria seu chapéu de mágico para colher as moedas que por acaso alguém lhe desse. 

A mãe comprou a ideia na hora. Achava positivo ele viver essa experiência. Foram até a praça central e escolheram um cantinho movimentado para o garoto tocar. Puseram o chapéu para os trocados e combinaram da mãe ficar meio afastada, num ponto onde ele pudesse vê-la. 

O menino começou a tocar sua concertina e logo chamou a atenção dos transeuntes. Uns achavam fofo aquele menino tão pequeno e tão concentrado em tocar seu instrumento. Outros sorrindo lhe davam moedas ou guloseimas. Alguns paravam pra ouvir. 

Ficaram ali uma meia hora. O menino encarnado no papel de músico e a mãe orgulhosa espiando de longe.

Até que um guarda se aproximou e perguntou se ela era a mãe do menino. Custou para ela entender a pergunta. Moravam há alguns meses nesse novo país e ela ainda não dominava a língua.

Quando finalmente entendeu e respondeu que sim, o policial pediu que ela o acompanhasse até a delegacia. Explorar menor é um crime que eles levavam muito à sério, ainda mais se feito por estrangeiros. Esse povo imigra pra cá e acha que pode fazer o que quer.

Ela sorriu e tentou explicar que era casada com um local e que o menino estava apenas brincando. Um jogo simbólico…Symbolic game, undestand? No exploration!

Mas diante do chapéu com algumas moedas, não houve argumento que o convencesse. Levou mãe e filho pra delegacia, onde ninguém conseguia entendê-la. Teve que ligar para o marido e pedir socorro. Óbvio que o esposo quase teve uma síncope. Onde já se viu levar o filho pra tocar na praça…isso lá é brincadeira? Viver uma experiência?! Eu que estou vivendo a experiência de sair do trabalho no meio do dia pra tirar minha mulher da cadeia!

Saiu de lá fichada. Com todos lhe apontando os dedos e lhe dando pitos. Para o delegado, outra dessa e seria deportada. Para o marido, a esposa era mais louca do que jamais supôs. Para o guarda, mais uma prova de que o país deveria fechar as fronteiras.

Só o menino saiu sorridente. Tinha vivido sua mais completa aventura. Músico de rua e fora da lei, todos no mesmo dia. Sua mãe era o máximo!





15.4.14

Bafômetro




Bafômetro


Mães se encontram para uma tarde de amizade e filhos.

“Menina, te contei que fui parada na blitz do bafômetro?”

“Não! E aí?”

“E aí que eu estava voltando de um jantar e tinha tomado umas cervejinhas.”

“Jura?! E você foi pega?”

“Vai escutando…eu disse pro guarda que tinha visto um documentário sobre o assunto e que não era obrigada a produzir prova contra mim mesma.”

“E ele?”

“Ele riu e disse que ia ter que me levar. Não sei pra onde, mas ia me levar. Daí ele me perguntou, bem na boa, se eu tinha bebido.”

“E você contou?”

“Ah, contei que tinha bebido uma ou duas cervejinhas e que não ia fazer o teste nem morta. Ele foi bem solidário, sabia? Disse pra eu relaxar e soprar que podia dar bem baixo e isso não era tão grave. Eu pedi um tempo para pensar. Encostei o carro e fiquei ali parada sem saber o que fazer. Rezei pra tudo que é santo. Até que passou um tempo e ele voltou dizendo que não dava mais pra esperar. Ou eu soprava ou ele me levava."

“O que você fez?"

“Resolvi soprar. Lembrei do Pilates e soltei todo o ar que tinha no pulmão. Depois puxei um ar purinho, sem tragar, soprei e deu zero!”

“Zero?! E o guarda acreditou?”

“Ele festejou comigo e saiu contando pra todo o pelotão. Daí um policial lá do outro lado berrou que com a minha massa corporal só podia dar zero. Pode?! Não basta bêbada, também me chamam de gorda!”

A outra quase chora de rir. 

“Você veio de carro?”

“Não. Viemos a pé. Por quê?"

“Então, vamos tomar uma cerveja e você aproveita e me ensina essa técnica de puxar um purinho sem tragar. Vai que me param um dia.”



11.4.14

TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe


TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe

O menino sempre foi muito esperto e inteligente. Mas não tinha uma relação tranquila com a escola. Apesar de mais velho da turma, foi um dos últimos a ser alfabetizado. Era distraído, irrequieto, ao mesmo tempo participativo, do tipo que sempre se destaca na classe, mas quando chegavam as notas, estava sempre na média, ou abaixo dela.

Em casa, só parava quieto pra jogar videogame. A tarefa era um transtorno. Levava horas para fazer um exercício facilmente solucionável em 15 minutos. E sempre a pulso. 

Os pais e a escola conversaram algumas vezes. A conversa sempre muito boa. O menino é mesmo desatento, nada fora do normal, mas é preciso sempre “buscá-lo”. Traçaram combinados de ações conjuntas. E tudo caminhou relativamente bem, respeitando-se o ritmo e o jeito do menino, até que veio o famigerado quarto ano.

A escola construtivista não aplicava provas até o terceiro ano. Esse processo de avaliação iniciava-se apenas no quarto. Foi quando as notas começaram a despencar. E o clima em casa pesou mais ainda na hora da tarefa. 

A mãe insistia para que ele estudasse mais. Ele esperneava, jogava livros longe, fazia birra, chorava, gritava. A mãe tentava se manter tranquila, mas de vez em quando explodia. O pai intervinha. Deixa comigo, eu estudo com ele. Mas no final, vinha mais um bilhete avisando que o menino estava de recuperação.

O padrão se repetia. Escândalos em casa, má vontade, provas mal resolvidas, conversas com a professora, indicação para ele ler mais e outra recuperação.

Até que um dia, a mãe sentou-se com as provas na mão e começou a analisá-las. Algo lhe chamou a atenção. Em todas elas, respostas “viajandonas”. Criativas, mas nada a ver com o que estava sendo pedido.

Percebeu que ele interpretava textos sem lê-los, respondia sem prestar atenção na pergunta, pulava introduções e cabeçalhos.

Teve um clique. O menino sabe a matéria. Ele não sabe é fazer prova!

A partir daí, mudou sua postura nas tarefas. Deixou de querer que ele aprendesse a matéria, isso era com a professora. Começou a ensiná-lo como se faz prova: leia o texto antes de responder. Preste atenção na pergunta. Só responda depois de entender o que está sendo pedido. Releia o que escreveu. Não, não é para escrever sua opinião. É para responder o que está no texto...sim, eu sei que você sabe a resposta. Mas é para dar a resposta do texto e não a sua. 

No começo foi um sofrimento! O menino se enfureceu ainda mais. Berrava que não precisava ler os textos porque a professora explicava em sala. Ficava bravo a cada resposta apagada que precisava ser refeita. Mais ainda quando a mãe se recusava a ajudá-lo e o fazia procurar no livro, dessa forma, obrigando-o a ler.

A mãe entendeu que a fúria aumentou porque finalmente eles tinham acertado a abordagem. O menino estava confortável na estratégia que o tinha levado até ali. Não queria mudá-la. Lutava para ninguém mexer no seu queijo.

Mantiveram-se firmes e aos poucos, bem aos poucos, ele foi entendendo e se acalmando. “Essa resposta eu posso falar o que eu acho, né mãe? Está perguntando a minha opinião. Ai, que saco, tem que justificar também?!"

E foi depois de muita resposta apagada, muito texto relido, que o menino chega excitado da escola. “Tirei a nota mais alta da classe em português!!!! Eu sou o cara!!!”

A mãe quase não acredita. Mais do que feliz pela nota, ficou feliz pelo efeito na auto-estima do menino. Ele estava radiante. Foi só então que percebeu como ele se ressentia dos maus resultados anteriores.

Abraçou-o e comemoraram o resultado de tanto esforço. Enquanto o menino corria para mostrar a prova ao pai, a mãe pensou que bastou prestar atenção de verdade nele para entender melhor o problema. Seu filho não era desatento. Desatentos tinham sido os adultos responsáveis pela educação dele. 

Sabia que a luta não estava ganha. Mas pelo menos agora sabiam que rumo tomar.